10 pérolas do cinema escondidas na Netflix

Procurando algo para assistir no final de semana, abaixo deixamos 10 dicas de ouro, que você pode encontrar na Netflix:

  1. A Qualquer Custo (Hell or High Water), de David Mackenzie (2016)

Apesar de não esconder suas referências – há um quê de tragicomédia dos western dos irmãos Coen, com o policial de Jeff Bridges remetendo àquele vivido por Tommy Lee Jones em “Onde os Fracos Não Têm Vez“, e a dubiedade moral de filmes que questionam o “american dream”, como o recente “O Ano Mais Violento”, de J.C. Chandor, por exemplo -, Mackenzie consegue imprimir sua própria visão, tanto em forma como em conteúdo, ao inserir em “Hell or High Water”, que é, em sua essência, um drama pessoal e familiar com toques de filme político, elementos de subgêneros como o road movie, o buddy movie e o western urbano revisionista, tudo isso sem jamais soar artificial e sem recorrer a resoluções fáceis ou didatismos moralistas. Some-se a isso um grupo de atores inspirados vivendo personagens tridimensionais extremamente bem construídos, apesar da economia narrativa, e um terceiro ato espetacular, e o resultado é este excelente filme.

2. Sete Minutos Depois da Meia-Noite (A Monster Calls), de Juan Antonio Bayona (2016)

O grande mérito de “A Monster Calls” é, mesmo com a abordagem fabulesca de temas como perda e amadurecimento, compreender que a natureza e o sentimento humanos são compostos muito mais por zonas cinzentas do que por pólos definidos de preto e branco. É curioso (e frustrante), porém, que um filme que tem essa maturidade pra tratar de sentimentos delicados e nebulosos seja, ao mesmo tempo, tão esquemático em sua forma e didatista em suas lições de moral. Em resumo, é um “coming of age” bacana, mas fica a sensação de que desperdiçaram o que tinha potencial pra ser um filmaço.

3. Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight), de Barry Jenkins (2016)

É bem verdade que “Moonlight” não traz – e nem pretende trazer – nada de novo, seja em forma ou em conteúdo, nos temas abordados pelo roteiro de Jenkins. Mas como é bom ver um drama tão sólido e sem afetações sobre questões ligadas a sexualidade, inadequação perante o mundo e, sobretudo, subjetividade reprimida. A opção pela narrativa em três tempos funciona perfeitamente e, graças à riqueza do protagonista, brilhantemente defendido por Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes, o filme nunca soa episódico ou cansativo. E os 15 minutos finais têm uma mise en scene deveras envolvente da temporada.

4. Jackie (idem), de Pablo Larrain (2016)

Qualquer tentativa de definir o quão rico e repleto de camadas é o estudo de personagem que Larrain realiza aqui, abordando temas como luto, saudade, vaidade, arrependimentos, rancor, busca por sentido e necessidade de afirmação pessoal, seria reducionista. É verdade que a estrutura narrativa escolhida demora um pouco a engrenar e exige um comprometimento acima da média por parte do espectador, mas, quando decola, a sensação é de que o filme ganha mais substância a cada minuto. “Jackie” é, em resumo, Larrain mais uma vez subvertendo as convenções das cinebiografias, filmando e montando em fluxo de memórias uma personagem fragmentada por dentro, graças também, em grande parte, a uma Natalie Portman irretocável, que faz jus à grandeza do material.

5. Um Limite Entre Nós (Fences), de Denzel Washington (2016)

A teatralidade das cenas, no começo, pode incomodar um pouco, já que o filme é construído quase 100% em torno dos diálogos e há pouco uso de recursos narrativos próprios do cinema, graças à opção de Washington por uma adaptação fiel ao material fonte. Com o passar da projeção, porém, “Fences” vai crescendo e se mostra um drama sólido sobre pessoas sobrevivendo e – mais do que isso – tentando entender o que é viver, de fato, mesmo com as sombras do passado. Além disso, impressiona como, mesmo o foco sendo quase inteiramente o casal central, interpretado com excelência por Denzel e Viola Davis, todos os personagens têm dimensão e arcos bem construídos. Grata surpresa.

6. Lion: Uma Jornada para Casa (Lion), de Garth Davis (2016)

É verdade que não há, aqui, nada além do que o cinema contando de forma convencional uma dessas histórias reais de desencontro/reencontro familiar que de vez em quando a gente vê na coluna esquerda do G1. Porém, “Lion” é eficaz em contar essa história de forma sincera e convincente, e, apesar de haver alguns tiques de filmes do gênero que incomodam um pouco – em especial, a trilha sonora invasiva e o insistente uso, na segunda metade do filme, de imagens da primeira metade, criando rimas visuais redundantes -, é interessante notar que o filme não se preocupa em dar aula de moralidade a ninguém e não tenta a todo instante fazer comentários “edificantes”. Fora isso, qualquer coisa em que Rooney Mara esteja merece ser assistida. Que bom seria se todo filme moldado pra premiação fosse assim.

7. Aliados (Allied), de Robert Zemeckis (2016)

Adornado, desde o início, por uma envolvente e elegante aura de classicismo, “Allied”, infelizmente, jamais se torna o que poderia ser. Aqui, há um ótimo filme escondido no segundo ato, em que Zemeckis estabelece o conflito central e mostra habilidade para passear pela encenação aberta e pela paranoia, mas esses 50 ou 60 minutos acabam sendo sabotados por um prólogo desnecessariamente longo e por um desfecho cuja carga emocional soa forçada. O resultado é bom, mas notoriamente irregular. Começa no clássico, passa pelo farsesco e conclui no piegas.

8. A Criada (Ah-ga-ssi), de Park Chan-wook (2016)

Ótimo contador de histórias que é, Park vai desnudando aos poucos o jogo de máscaras e perspectivas que é “A Criada”, em que interesses, ambição e relações de poder são suplantados pela necessidade premente de contato e sentimentos verdadeiros. A emancipação e a ressignificação de símbolos, aqui, representam a ruptura com um universo cruel e lúgubre. Ao fim, apesar de haver uma barriguinha no início do segundo ato, “Ah-ga-ssi”, virtuoso em forma e substância, é um dos melhores thrillers da década até aqui.

9. Grave (Raw), de Julia Ducournau (2016)

Com uma premissa como a de “Raw” nas mãos, seria fácil se limitar a trabalhar a óbvia metáfora da repressão sexual de maneira genérica, mas Ducournau realiza um filme que, embora toque, sim, na metáfora dita acima, vai além, pontuando os momentos de visceralidade desconcertante com toques de genuíno carinho para com as personagens centrais – e a trilha sonora é perfeita nesse mister -, tudo para construir uma brutal, mas não por isso menos tocante, alegoria sobre a latência e inescusabilidade do destino de um ser, a nocividade das tentativas de se reprimir o que se é e a necessária empatia e compreensão entre os desviantes do padrão. A narrativa é um pouco trôpega, é verdade, com Ducournau gastando mais tempo do que seria necessário para estabelecer os conceitos do filme, o que acaba prejudicando a fluidez com que as ideias se desenvolvem, mas, mesmo com problemas pontuais, “Raw” é um dos melhores “indies” dos últimos tempos.

10. Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off), de John Hughes (1986)

Hughes pinta Broderick – perfeito no papel, aliás – com cores de cinismo e hedonismo como virtudes maiores, construindo a figura do herói popular que, conscientemente ou não, quebra a redoma do tédio e edifica os que estão a seu redor, num sem número de cenas memoráveis. A nostalgia, certamente, é um fator para muitos, mas o cinema teen dos anos 80 nem de longe vive só dela, e “Ferris Bueller’s Day Off” é um dos principais responsáveis por isso. Icônico.

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Categorias:Cinema, Críticas, Listas

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