Porque ‘Planeta dos Macacos’ é a melhor trilogia da década

O Planeta dos Macacos original, de 1968, foi mais que um êxito, foi um fenômeno cultural ao entardecer da década da liberdade – tema esse indissociável quando se fala em toda saga. Com o tempo, o filme dirigido por Franklin J. Schaffner tornou-se um dos maiores clássicos da ficção científica, de modo que gerou quatro sequências e duas séries de TV nos anos 1970 e uma refilmagem (equivocada) por Tim Burton em 2001. Nenhuma delas, todavia, empolgou tanto como o filme original, até o relançamento da saga nesta década que se encerra.  A 20th Century Fox conseguiu trazer À Origem, O Confronto e A Guerra uma energia próxima do filme original. Se a direção, interpretações, efeitos especiais e maquiagem já impressionavam em 1968, a nova trilogia não ficou a dever nesses quesitos, a tecnologia proporcionou ainda um uso arrojado da captura de performance por meio de sensores corporais nos atores. É claro que o desfecho não teve o mesmo impacto do original em que Charlton Heston encontra você-sabe-o-quê você-sabe-onde, mas também poucas pessoas esperavam tamanha grandiosidade.

Em linhas gerais, a nova trilogia versa sobre a jornada de César (Andy Serkis), da sua origem à guerra, como querem os títulos em português, na qual ele lidera a revolta de macacos, de inteligência avançada devido à modificação genética, contra os sobreviventes humanos. Confira abaixo as críticas de cada filme em particular:

  • Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes), de Rupert Wyatt (2011)

É verdade que a estrutura do filme é básica e bastante manjada, com o estabelecimento das personagens e regras do universo no primeiro ato, a apresentação dos incidentes que movimentam a trama e o desenvolvimento do arco da personagem central no segundo e o desfecho climático no terceiro, bem como que a alegoria sociopolítica aqui construída com o apoio da especulação científica não apresenta nada de particularmente novo ou desafiador. Dito isso, é verdade também que não é todo blockbuster que constrói seu protagonista como faz A Origem.

O segundo ato do filme de Wyatt, no qual tem lugar o arco de César indo da figura de animal domesticado à de líder emancipacionista, minuciosamente plantado desde o começo, é um triunfo absoluto, muito pela parcimônia com que o diretor, sem precisar lançar mão dos diálogos ultraexpositivos que seriam de se esperar do tipo de produção, põe sobre a mesa os signos de dominação e opressão e, em contrapartida a estes, os de autonomia, identidade, pertencimento e fatores reais de poder que compõem o nascimento do líder e fazem de um macaco um dos protagonistas de blockbuster mais interessantes da década. E a conclusão da trama, apesar de, como já dito, ser totalmente convencional e previsível, trouxe um gancho instigante para o filme seguinte. Pipocão de qualidade. 7/10

  • Planeta dos Macacos: O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes), de Matt Reeves (2014)

No segundo capítulo, Reeves se aproveita do fato de o que há de ficção científica nesta saga ter sido estabelecido no primeiro filme e dedica não mais do que cinco minutos a um prólogo que ambienta o que aconteceu entre A Origem.  O Confronto investe muito mais em seus conceitos sociopolíticos do que em qualquer outra coisa. Liberdade que seu predecessor, obrigado a apresentar as regras do universo, teve em menor grau.

E, ignoradas a total previsibilidade dos rumos da trama e a existência de diversas outras histórias que cuidaram dos temas desta de maneira mais marcante, seja em forma, seja em conteúdo, a grande virtude desse filme reside justamente em seus realizadores compreenderem que a coexistência é quase sempre um barril de pólvora, bem como que a linha existente entre a abertura ao diálogo e o extinto/paranóia da auto-preservação, combustível para o anseio de dominação, é tênue. Mais do que isso, Reeves mostra um bom controle sobre a história, conseguindo estruturar essas ideias, se não de forma visualmente ou substancialmente distinta, ao menos de maneira a tornar seu filme um blockbuster redondinho com mais a dizer do que muito filme vendido como autoral. O filme solidifica a saga dos macacos. Nota: 7/10

  • Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes), de Matt Reeves (2017)

Subvertendo as expectativas e o título do projeto, Reeves relega a culminância da trilogia para os minutos finais e investe primordialmente num tom de aventura e contemplação, com um senso de jornada ainda não visto na série, para entregar um filme ao qual importa, antes de qualquer coisa, o arco e os conflitos do seu protagonista.

A verdadeira guerra, aqui, é travada na cabeça de César, num tour de force que perpassa os temas clássicos do universo para, ao fim – num belo uso de novas personagens como símbolos, vale dizer -, tentar responder a uma questão fundamental: o que nos torna quem somos? Com a permissão dos amantes de Logan, A Guerra  foi o blockbuster de 2017. Nota: 7,5/10

(Com colaboração de Well Cunha)

Anúncios


Categorias:Cinema, Críticas

Tags:,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: