Especial Almodóvar: ‘Tudo Sobre Minha Mãe’, “Fale com Ela’, ‘Má Educação’ e ‘Volver’

Depois das obras-primas (categorizo sem nenhum receio) Tudo Sobre Minha Mãe e Fale com Ela, até perdoamos Pedro Almodóvar pelo fraquinho Má Educação, mas ele logo se recuperaria com Volver. Abaixo, as revisões desses filmes, dando continuidade ao nosso especial Almodóvar:

  • Tudo Sobre Minha Mãe (1999)

Abandonando definitivamente o seu estilo farsesco para o melodramático, Pedro Almodóvar terminou os anos 1990 com um filme marcante e apaixonante. Na trama, a enfermeira Manuela (Cecilia Roth), a mãe do título, está no centro desta história. Ela sofre uma tragédia inimaginável: seu filho Esteban (Eloy Azorin) é morto em um estranho acidente enquanto tenta obter o autógrafo de sua atriz de teatro favorita, Huma Rojo (Marisa Paredes). O filme se concentra, então, na mulher remontando as peças de sua vida após a fatalidade. Em um daqueles paradoxos característicos do diretor, são as mulheres que ela encontra em seu futuro que lhe farão entrar em paz com seu passado. O filme que começa com a dedicação à sua mãe e termina com homenagem às suas divas – como Bette Davis e Gena Rowlands – é uma carta de amor às mulheres, dessa vez mais sentimental e menos carnal. Fala sobre o amor feminino que transcende erros, sexo e caráter. No fim, tudo é sobre Almodóvar, um homem orgulhosamente dependente das mulheres da sua vida. Nota: 10/10

  • Fale Com Ela (2002)

Ao assistir Fale com Ela, saltam aos olhos as cores ricas e saturadas. O trabalho de câmera rigoroso e bem planejado que o diretor vinha abandonando em favor das escritas rocambolescas – teve seu auge em A Lei do Desejo (1987) – foi recuperado aqui. Tomadas suaves de panorâmica e zooms contínuos o guiam com segurança, embora a narrativa seja levemente fraturada, transitando entre o passado, o presente e o futuro sem muita explicação. Essa descontinuidade, no entanto, não é confusa para o espectador, com um elenco sublime atuando com clareza sob direção do mestre. Há um enredo secundário sobre as touradas que temia não gostar ao rever, visto que hoje em dia acho essa tradição espanhola quase medieval, mas isso não ocorreu. O cineasta consegue inserir a trama como fundamental para o andamento de sua história, sem a glorificação que existia em, por exemplo, Matador (1986). O que mostra que Almodóvar, até aquele momento, estava sempre em evolução. A participação de Caetano Veloso, cantando Cucurrucucú Paloma é um dos momentos mais arrepiantes da carreira do diretor. Para ficar cantando por dias depois dos créditos finais. Nota 10/10

  • Má Educação (2004)

Já disse Christine Darbon (Claude Jade) em Domicílio Conjugal (1970), de François Truffaut: “se você usa a arte para acertar contas, já não é mais arte”. Não serei tão tácito igual ela, mas o caminho é por aí mesmo. Veja o caso de Almodóvar com esse filme. Ele passou 10 anos escrevendo o roteiro, durante o qual fez os dois clássicos acima. É baseado em um conto que ele escreveu quando adolescente sobre sua experiência em um colégio interno católico, que lhe deu uma educação amparada em culpa, pecado e punição, que lhe recriminavam, especialmente por sua sexualidade não ortodoxa. O diretor diz que o cinema tornou-se sua religião, por que lhe fez enxergar as falhas da religião institucionalizada. Má Educação é basicamente sobre isso, sobre essa dicotomia, cinema x igreja, mas na tela não ficou tão bonito. Soa como um filme ressentido e triste, que Almodóvar precisava expurgar e não conduzir. Sorte que foi feito em uma fase madura da sua carreira e ainda dá para acompanhar sem grandes traumas, mas com um gostinho amargo após a doçura de Fale com Ela e Tudo Sobre Minha Mãe. Nota: 6.5/10

  • Volver (2006)

Eu amo que o enredo básico desse filme foi contado 11 anos antes em A Flor do Meu Segredo. Umas das minhas metalinguagens e auto-referências favoritas da sétima arte. Esta é uma história simples sobre três gerações de mulheres: a avó morta Irene (Carmen Maura, trabalhando pela primeira vez com o diretor desde os anos 80), suas filhas Raimunda (Penélope Cruz, na atuação de sua vida) e Sole (Lola Dueñas) e sua neta Paula (Yohana Cobo). A ação acontece principalmente em Madri, em um bairro onde moram vários grupos étnicos e pessoas das diferentes províncias da Espanha, no qual os homens são irrelevantes e as mulheres a força motriz que conduz a sociedade através da irmandade. Raimunda, Sole e Paula têm que voltar para sua cidade natal para elogiar os mortos e rever uma de suas tias, Paula (Chus Lampreave). Logo, a velha morre e desencadeia uma série de eventos misteriosos,  Irene reaparece para resolver alguns problemas com suas filhas e com sua vizinha, Augustina (Blanca Portillo), revelando segredos do passado até então desconhecidos. É um filme sobre a sociedade espanhola, sobre saudade, a cultura da morte e a luta de quatro mulheres com forte caráter e personalidade, tentando sobreviver ao vento, fogo, morte e, principalmente, à masculinidade imperativa. Ótima fotografia, trilha sonora inigualável, filme cheio de risos e emoções. Ah, o primeiro Almodóvar que vi no cinema e jamais esquecerei. Nota: 10/10

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Categorias:Cinema, Críticas

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