Os vícios bons e ruins de Darren Aronofsky vistos em ‘Réquiem para um Sonho’ na Netflix

O cineasta nova-iorquino Darren Aronofsky já havia estreado com o experimental Pi, de 1998, mas foi com o perturbador Réquiem Para Um Sonho, de 2000, disponível na Netflix, que ele ganhou a atenção do mundo. Foi neste que ele começou a desenhar suas marcas autorais que o acompanhariam em seus melhores momentos (O Lutador, Cisne Negro) e também nos seus momentos mais deliciosamente duvidosos (Noé, Mãe!). Basicamente, em quase todos os seus filmes, Aronofsky joga luz sobre personagens imperfeitos, mas carismáticos, com fortes obsessões que os levam à autodestruição, tanto física como mental. Esses traços o conduziram a grandes estudos de personagens como o Randy de Mickey Rouke em O Lutador (2008) e a bailarina Nina de Natalie Portman em Cisne Negro (2010). Em Réquiem, todavia, a sua preocupação é mais ampla: não se concentra em apenas um individuo, mas em criar um mosaico de um quarteto de pessoas que vivem no Brooklyn, Nova York, conduzidas à aniquilação existencial pelo consumo abusivo de drogas.

O roteiro de Hubert Selby Jr., adaptado do seu próprio livro, mostra como a dependência química consome mente, corpo e alma, uma vez que quando você está viciado, o caminho parece sem volta. São quatro vidas (uma mãe, seu filho, o melhor amigo e a namorada deste), quatro viciados (a mãe em televisão e pílulas para emagrecer e os jovens em heroína e cocaína) e quatro atores afiados (Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connely e Marlon Wayans). Apesar de suas aspirações de grandeza, eles sucumbem aos seus vícios. Sara Goldfarb, a mãe, por exemplo, sonha em voltar a caber em um vestido vermelho, que usou na formatura do filho, para aparecer em um programa de televisão e, desse modo, escapar da insignificância trazida pela velhice. Para tanto, ela iniciará uma dieta com quatro pílulas (roxa de manhã, azul de tarde, laranja ao anoitecer e verde antes de dormir). As três primeiras conduziram-na a delírios neuróticos durante o dia e a última a fará dormir apesar do estado caótico em que se encontra. A veterana Ellen Burstyn, uma das grandes atrizes a surgirem com a nova Hollywood dos anos 1970, dá uma aula de interpretação nessa rotina exaustiva. Seu monólogo sobre a solidão da velhice em famosa cena e seu espiral de loucura crescente durante o filme já são antológicos. A própria atriz declarou que essa foi sua maior interpretação.

A fenomenal Ellen Burstyn em cena do filme.

Contudo, se ao mesmo tempo Réquiem cumpre o que promete, ser um tratado sem meios tons sobre os malefícios das vicissitudes modernas, também tem nesse aspecto seu maior defeito. O filme possui certo ar didático, de “diga não às drogas”, de “veja bem, tudo pode viciar” que incomoda. Não ajuda muito que Aronofsky tenha editado o filme com a já batida montagem de hip-hop (uma sequência de tomadas extremamente curtas, sua característica e resumo dos vícios ruins do diretor) para simular a sensação de desorientação e falta de controle proporcionado pelas drogas. Para se ter uma ideia, um filme médio de 100 minutos contém de 600 a 700 cortes, este contém mais de 2.000, no qual, por exemplo, a cada vez que as drogas são usadas, é feito um corte para a dilatação da pupila. Mas não há como negar que foi um efeito eficiente e certamente inovador 19 anos atrás, então damos um desconto ao diretor.

Agora, se existe um aspecto que não envelheceu foi a trilha sonora de Clint Mansell, compositor de que Aronofsky não abre mão e fez parte de todos os seus filmes desde então, exceto Mãe! (2017). Mansell, famoso por combinar música orquestral com instrumentos eletrônicos, casa seu estilo perfeitamente com um filme ao mesmo tempo dramático e alucinatório. A composição gradualmente apoteótica Lux Aeterna, escrita para esse longa, tem sido usada frequentemente em muitos outros contextos, como trailers de outros filmes (incluindo O Senhor dos Anéis: As Duas Torres, O Código Da Vinci, Eu Sou a Lenda, Chamas da Vingança e Sunshine – Alerta Solar), trilhas sonoras para vídeo games e música de fundo para programas de TV e anúncios. Também é comumente usada como música promocional e/ou de entrada para muitas equipes esportivas universitárias e profissionais nos Estados Unidos.

Ao fim, ao cabo, desconsiderando a edição de vídeo clipe, o que fica do filme é uma sensação satisfatória, apesar do final devastadoramente trágico e desesperançado. Muito se fala que uma boa obra de arte é aquela que tira o espectador do seu lugar comum. Ninguém gosta de se sentir incomodado ou abalado por um filme, logo, a escolha de sentir emoções desconfortáveis (é preciso até mesmo ter estômago forte para aguentar certas sequências) e ser convidado a pensar depende muito do nível de entretenimento que o filme devolve a quem o assiste. Portanto, se esses são os termos do contrato entre os filmes e a gente, podemos dizer que Aronofsky cumpriu bem seu papel.

Nota: 7.5/10

Trailer:

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Categorias:Cinema, Críticas

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