As 10 melhores músicas de Belchior + 2 faixas bônus

Belchior nos abandonou há pouco mais de dois anos. Cantor e compositor cearense de voz fanha e anasalada – inconfundível – ele tinha exatos 70 anos à data de sua morte e nos deixou um legado de músicas que vão da agonia existencialista, passam pela saudação regionalista e chegam ao romantismo brega em 14 álbuns de estúdio, além de outros ao vivo e em parcerias.

Para quem quiser conhecer melhor a obra do artista ou apenas relembrar, listo (bem pretensiosamente) as 10 melhores músicas para um primeiro contato com sua obra e abaixo delas breves comentários, além de duas faixas bônus e as menções honrosas com músicas que adoro, mas como 10 é um número inteiro, não couberam.

  1. Coração Selvagem (1977, do disco homônimo)

Romantismo brega e profundo, de uma excepcionalidade indescritível. Coração Selvagem é perfeita para tomar umas no bar com uma grande paixão ou simplesmente para curtir uma boa fossa. Ou melhor, é uma grande música para se ouvir sempre, sem motivo especial, por que grandes músicas não precisam de uma razão imponderável para serem apreciadas.

Versos preferidos: difícil, mas fico com “Meu bem, mas quando a vida nos violentar/ Pediremos ao bom Deus que nos ajude/ Falaremos para a vida/ Vida, pisa devagar, meu coração, cuidado, é frágil/ Meu coração é como vidro, como um beijo de novela.”

2. Divina Comédia Humana (1978, do disco Todos os Sentidos)

Um sincretismo acústico brilhante que une Dante e Honoré de Balzac no título e Albert Einstein, Caetano Veloso e Olavo Bilac na letra. A versão acústica do álbum Divina Comédia Humana é um primor.

Versos Preferidos: a apropriação de Bilac – “Ora direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso..”

3. Fotografia 3×4 (1976, do álbum Alucinação)

O hino seco anti-tropicalista que narra as angústias de qualquer pessoa interiorana que já se aventurou na cidade grande.

Versos Preferidos: o recado pro Caetano – “Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua”.

4. Tudo outra vez (1979, do álbum Era uma Vez um Homem e Seu Tempo)

Uma extensa poesia narrativa dolorosa e saudosista. Recomendo a versão acústica, na qual a interpretação do cantor dá um tom mais melancólico à letra.

Versos Preferidos: “Há tempo, muito tempo/ Que eu estou/ Longe de casa/ E nessas ilhas/ Cheias de distância/ O meu blusão de couro/ Se estragou”

5. Paralelas (1977, do álbum Coração Selvagem)

A corrupção moral trazida pela alienação do trabalho, a alienação do trabalho causada pela necessidade material, a necessidade material que separa o homem do seu eu verdadeiro. Música-irmã de Roda Morta, de Sérgio Sampaio.

Versos Preferidos: “E no escritório em que eu trabalho e fico rico / quanto mais eu multiplico / diminui o meu amor”.

6. Pequeno Perfil do Cidadão Comum (1979, do álbum Era uma Vez um Homem e Seu Tempo)

Composta em parceira com ninguém menos que Toquinho, talvez seja sua música mais política, e mais contundente ainda a respeito da alienação trabalhista que Paralelas. Parte do álbum que mostra uma grande preocupação em escrever uma crônica da urbe brasileira e sua população.

Versos Preferidos: “Era feito aquela gente honesta, boa e comovida/ Que caminha para a morte pensando em vencer na vida”.

7. Apenas um rapaz latino-americano (1976, Alucinação)

A música mais conhecida do cearense, basta dizer que quando falamos do tal “rapaz latino-americano” já sabemos de quem se trata sem precisar nomeá-lo. A letra é um afronte a ditadura militar, que impedia a livre expressão das pessoas, especialmente dos artistas.

Versos Preferidos: talvez um dos versos mais potentes já escritos em português – “Mas se depois de cantar você ainda quiser me atirar/ Mate-me logo, à tarde, às três, que à noite tenho um compromisso/ E não posso faltar por causa de você”.

8. Conheço meu lugar (1979, do álbum Era uma Vez um Homem e Seu Tempo)

Um ode de resistência e orgulho ao Nordeste dos anos 70/80 esquecido e vilanizado pelos governantes. Espera aí… anos 70/80?

Versos Preferidos: “Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos! Não sou da nação dos condenados! Não sou do sertão dos ofendidos! Você sabe bem: Conheço o meu lugar!”.

9. Clamor no deserto (1977, do álbum Coração Selvagem)

Belchior sempre “escondeu” referências literárias nas suas letras como nesta música sobre ano novo que traz não esperança de melhoras, mas o temor que venha aí um 1-9-8-4 orwelliano.

Versos Preferidos: “Quem me conhece me pede que seja mais alegre… Mas é que nada acontece que alegre meu coração.”

10. Alucinação (1976, álbum homônimo)

O testamento materialista e a síntese filosófica de Belchior. Os versos preferidos falam por si.

Versos Preferidos: “Eu não estou interessado em nenhuma teoria / em nenhuma fantasia / nem no algo mais / nem em tinta pro meu rosto / oba oba, ou melodia / para acompanhar bocejos / sonhos matinais / eu não estou interessado em nenhuma teoria / nem nessas coisas do oriente / romances astrais / a minha alucinação é suportar o dia-a-dia / e meu delírio é a experiência / com coisas reais”

Faixas-Bônus:

  • Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, na voz de Elis Regina (1976, no álbum Falso Brilhante)

É tipo Aretha Franklin cantando Respect, de Otis Redding. A interpretação sublime de Elis tornam as canções dela, Belchior é “apenas” o compositor.

Menções Honrosas: Na Hora do Almoço, À Palo Seco, Galos Noites e Quintais, Populus, Como Se Fosse Pecado, Medo de Avião, Comentários a Respeito de John, Dandy e Aparências.

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Categorias:Listas, Música

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