‘Divino Amor’: distopia futurística provoca os evangélicos brasileiros

“Um exuberante e intrincado comentário sociopolítico”, anuncia uma das citações da crítica estrangeira que estamparam o pôster de divulgação internacional de Divino Amor (2019). Alie-se a isso a impressão inicial causada pela premissa do novo longa de Gabriel Mascaro (Boi Neon) e nada mais natural do que se esperar uma distopia de discurso potencialmente elitista e caricaturizado atacando em termos superficiais a crescente tendência neoconservadora no Brasil – fenômeno representado de modo mais imediato pelos cultos neopentecostais e com o qual certa parcela do campo progressista parece não fazer ideia de como lidar em concreto – para além de uma retórica que só dialoga com aqueles que já a corroboram. Felizmente, não é o caso.

Divino Amor se passa em um projetado futuro próximo, em 2027, cenário no qual Joana (Dira Paes) divide seus dias entre o trabalho como funcionária de cartório de registro civil e a dedicação à vida religiosa, marcada por visitas a um grupo de contingenciamento de crises conjugais e passagens em serviço “drive-thru” de aconselhamento pastoral, dado o insucesso que ela, junto ao marido (Júlio Machado), tem enfrentado em seu objetivo de engravidar.

Ao longo dos dois primeiros atos, Mascaro constrói sua narrativa em torno de dois impulsos bem definidos. O primeiro diz respeito ao estabelecimento do universo, marcado pelo emprego de um maneirismo estético já visto antes em Boi Neon (2015), mas que aqui se volta, além da construção de uma lógica visual própria, a deixar claro que aqueles tempo e espaço, embora traduzam valores contemporaneamente conhecidos, não são exatamente os presentes. Ao mesmo tempo, há um necessário cuidado no sentido de garantir que o estranhamento àquela realidade não seja radical ao ponto de impedir uma conexão dramática com as situações traduzidas na tela. E é aí que entra o segundo impulso.

É que importa a Divino Amor, mais do que qualquer coisa, uma proximidade íntima com a rotina de Joana que possibilite a compreensão da perspectiva de sua protagonista/heroína frente à realidade que lhe é imposta e ao que ela própria alimenta como sendo a única resposta possível a suas indagações.

Trata-se de uma narrativa em que se sucedem paradigma, crise e redenção. Consistindo o paradigma na visão do indivíduo como parte de algo maior, destinado a um padrão preconcebido e insubstituível de realização – no caso, o matrimônio e a procriação, retratando o ser enquanto meio, e não como fim em si mesmo; o controle e a padronização como regra de ouro. A crise, embora num plano mais direto seja representada pela frustração no atingimento daquele objetivo, se traduz de modo mais decisivo na latência de um desconforto existencial que marca toda a jornada de Joana, posta a prova quando, por razões que escapam ao seu controle, ela se torna incapaz de atender às regras daquele ambiente e é relegada ao ostracismo.

Tudo isso nos conduz ao clímax, onde o cineasta pernambucano, depois de guiar o espectador por uma longa trilha de possibilidades dramáticas e de linguagem – flerta-se com o drama de costumes, a sátira política absurdista e até o thriller voyeurista –, enfim põe sobre a mesa as reais cartas de sua visão, descortinando a natureza essencialmente fantástica e religiosa do seu conto e redimindo sua heroína por meio de um novíssimo testamento em que ausência de explicação é libertação e a autodeterminação é a única palavra revelada possível. Ao fim, para Mascaro, o que está à margem não tem nome, e quem não tem nome não tem medo de nada.

Nota: 8/10

Trailer:

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Categorias:Cinema, Críticas

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