Maratona Bong Joon-ho e seus filmes americanos: “Expresso do Amanhã” e “Okja”

Chegamos ao fim parcial da nossa revisão da carreira de Bong Joon-ho. Ainda este ano será lançado comercialmente Parasita, seu mais recente filme, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Por enquanto, analisamos seus dois outros longas mais recentes, feito em co-produção com os norte-americanos:

  • Expresso do Amanhã (2013)

É um mote sensacional: em 2014, um experimento fracassado sobre mudança climática matou quase toda a vida no planeta, exceto para poucos “afortunados” que embarcaram no Snowpiercer, um trem que viaja pelo mundo (no caso Ásia, Europa e África) sem parar em nenhum momento. Em 2031, um novo sistema de classes está consolidado, no qual conforme afunda-se nos últimos vagões, a luxúria vai cedendo espaço a miserabilidade de forma gradual.

Visualmente, Joon-ho pega a ideia clássica de que no cinema qualquer viagem de trem (ou de carro, de avião, de bicicleta, etc) significa mudança e a anula por completo ao fazer girá-la em círculos. Tematicamente, traz metáforas apropriadas para discutir tanto o capitalismo como o socialismo. Ele espezinha o primeiro ao refletir sobre a alienação das classes, dominações ilegítimas, controle ideológico e populacional e a necessidade de enquadramento de cada cidadão em seu quadrado ou, no caso, em seu vagão. Ele cutuca o segundo na figura do Grande Líder, Wilford (Ed Harris), idealizador do trem, que deve ser temido e respeitado para manutenção do bem comum, como a um deus. Ora, o trem é apenas um ecossistema como era o mundo, aponta Wilford. Todo deus, entretanto, tem que enfrentar seu demônio em algum momento e ele vem na figura de um dos oprimidos do último vagão, Curtis (Chris Evans), que comandará a revolução através da luta e solidariedade. Basicamente, o cineasta sul-coreano nos diz que qualquer sistema fechado está sempre à mercê do descarrilamento e que o ideal mesmo seria ir mudando de tempos e tempos para as coisas continuarem a mesma. 

O filme é baseado na graphic novel francesa “Le Transperceneige”. Bong Joon-ho descobriu os quadrinhos no final de 2004, durante a pré-produção de O Hospedeiro (2006), e ficou fascinado com o conceito de pessoas que lutavam no trem pela sobrevivência. Os dois filmes tem em comum essa preocupação do coreano com as consequências nefastas para a Terra quando os seres humanos usam a natureza como um local de despejo dos seus experimentos fracassados. A “revolução dos bichos” do diretor só não é melhor por que pesa a mão no roteiro mastigado, talvez por influência dos produtores americanos, mas, por outro lado, às vezes é até bom esfregar a verdade na cara das pessoas que não conseguem enxergar sozinhas. Nota 8/10

  • Okja (2017)

Uma jovem garota sul-coreana arrisca a vida para impedir que uma empresa multinacional poderosa, a Mirando, sequestre seu melhor amigo, um super-porco chamado Okja – indo parar nos Estados Unidos para protegê-lo e tê-lo de volta. Antes de um veredicto sobre o filme, vale uma recapitulação extra-campo sobre a interessante discussão sobre o que é cinema que Okja acabou se envolvendo sem querer. Este filme e Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe (2017) gerou bastante controvérsia depois de ter sido selecionado para a competição do Festival de Cinema de Cannes 2017, devido ao fato de que, como produções da Netflix, eles não receberiam um lançamento nos cinemas da França depois do festival. A Netflix tentou fazer um acordo com distribuidores franceses e cadeias de cinema para um lançamento limitado antes da estreia no streaming, mas foi impedida por leis francesas muito rígidas que impedem qualquer filme lançado nos cinemas de estar disponível em um serviço de streaming antes de 36 meses após a data original de lançamento no cinema. Embora ambos os filmes tenham sido exibidos na competição, o festival respondeu à controvérsia alterando suas regras, especificando que, a partir da edição de 2018, todos os cineastas e produtores que submetessem seus trabalhos para consideração pela competição devem se comprometer a obter distribuição regular na França. Quando a logo da Netflix foi exibida nos créditos iniciais durante o festival, o filme foi até mesmo vaiado.

Grosserias e polêmicas à parte, admiro a insistência de Bong Joon-ho em sempre exibir as duras verdades sobre ganância corporativa, maus tratos a inocentes (seja deficientes mentais, crianças ou monstros inocentes) e o mal que as pessoas fazem impondo à força sua bússola moral sobre os outros. O filme é bonito no primeiro ato mostrando a amizade entre a garota e seu animal de estimação desengonçado, mas o gênero da fantasia disneyzeficado não faz muito meu estilo. O segundo ato na América é terrível e exagerado, com Tilda Swinton e Jake Gyllenhaal (dois excelentes atores, não sei o que aconteceu) apresentando desempenhos caricaturais, alguns decibéis acima do tom. O desfecho, que mostra o sistema de “produção” e abate dos super-porcos, melhora um pouco as coisas. É chocante, filmado como o terror de um holocausto, o que me faz pensar sobre certo cansaço da passividade dos seres humanos por parte do diretor. Porém, um pouco de sutileza cairia melhor ao filme. Nota: 6.5/10

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Categorias:Cinema, Críticas

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