Especial Almodóvar: os anos 1990 com ‘De Salto Alto’, ‘Kika’ e ‘A Flor do Meu Segredo’

Na década de 1990, Pedro Almodóvar nos presenteou com suas duas primeiras obras-primas: Carne Trêmula (1997) e Tudo Sobre Minha Mãe (1999). Tais filmes merecem revisão em texto próprio, mas antes de chegar a eles no nossa maratona que revisita toda sua carreira, precisamos comentar sobre suas três obras antecessoras:

  • De Salto Alto (1991)

Você tem alguma memória singular de infância que parece insignificante para o resto do mundo, mas diz muito para você? No caso de Rebeca (Victoria Abril), ela recorda-se que quando era pequena só dormia quando ouvia os saltos altos de sua mãe, a cantora Becky Del Páramo (Marisa Paredes), fazendo barulho no assoalho, vinda da boêmia. Isso define e explica todas as atitudes da sua vida: um amor que se confunde com dependência física e emocional, ao ponto da filha casar-se com um ex-namorado da mãe apenas para imitá-la. O primeiro filme de Almodóvar nos anos 1990 é uma homenagem clara a Ingmar Bergman e seu Sonata de Outono (1978). Clara até demais, quase didática, como na cena em que Rebeca explica o conceito do clássico filme para a mãe Becky e o relaciona com sua história pessoal. Certo que sutileza não era o forte de Almodóvar à época, mas essa mastigação no roteiro incomoda por que sabemos que ele já havia feito melhor e soa como metalinguagem barata. Mas, enfim, não é um filme ruim. Um pouco excessivo, com um terceiro ato meio maçante, mas com uma cena final belíssima que compensa a demora em desenrolar a história. O enredo da filha medíocre que olha para a mãe relapsa como divindade e se sente impotente por que nunca vai conseguir alcançá-la termina com um acerto de contas assim como em Sonata e com um gesto altruísta que parece definir a maternidade, o sacrifício. É claro que sendo Almodóvar não fica só no dramalhão, há toda uma trama paralela burlesca sobre um policial, que secretamente é uma drag queen, apaixonado pela diva Becky. Isso faz o filme se sobressair do banal: é totalmente referencial ao grande diretor sueco, mas magicamente, é também o mais puro suco almodovariano. Nota: 7/10

  • Kika (1993)

Conceitualmente esse é um filme histericamente hilário, no qual se maquia cadáveres catalépticos, onde tem ex-ator pornô fugitivo da polícia, casos com ex-padrasto do seu namorado, escritores de livros policiais que narram experiências pessoais e ninguém sabe, decotes cheios de sangue sendo casualmente limpos e fugas para qualquer lugar, pouco importa, por que o tesão falou mais alto que a razão. Na prática, não é. Almodóvar dessa vez não conseguiu dar naturalidade para seus absurdos e criou um filme que é sacrificante de assistir até o final. Há, entretanto, no miolo do filme, uma famosa cena de estupro que dura longos minutos e pode gerar discussões acaloradas sobre os limites da arte. Sempre digo que assim como Quentin Tarantino naturaliza a violência, Almodóvar naturaliza as perversões sexuais. O resultado é o choque e a reflexão, que muita gente acha de mau gosto por que provoca risadas e, bem, é mesmo, mas é feito para tirar a gente da nossa indiferença. O saldo geral é decepcionante. Veronica Forqué na pele de Kika é uma das escolhas mais equivocadas do diretor, conhecido por escalar bem as suas atrizes. Forqué, que supostamente deveria emular Marilyn Monroe, é boa em papéis coadjuvantes como em O Que Eu Fiz Para Merecer Isto?, mas aguentar sua voz insuportável e sua afetação durante duas horas é quase uma tortura legalizada. O que salva é Victoria Abril como a jornalista sensacionalista Andrea Caracortada. Almodóvar não percebeu que o filme na verdade era dela e não de Kika. Nota 6/10

  • A Flor do Meu Segredo (1995)

Teria Almodóvar inventado um novo gênero: o do filme “embrionário”? Vejam só: durante a película, a escritora Leo (Marisa Paredes) conta que uma das histórias que pensa em escrever é sobre uma garota que mata o pai depois que ele tenta estuprá-la e, em seguida, junto com sua mãe esconde o corpo em um congelador de restaurante. Este é o enredo básico de Volver (2006), com Penélope Cruz! Bom, na história de A Flor, Leo escreve romances sentimentais com grande sucesso, mas sente vergonha disso e se esconde sob um pseudônimo, Amanda Gris. Ela está descontente com sua vida profissional e com o marido, um soldado que trabalha em Bruxelas e na Bósnia que nunca pára em casa. O filme é famoso por mudar o tom farsesco de Almodóvar para os ricos melodramas, uma decisão sábia depois do duvidoso Kika que denotava certa saturação no estilo do diretor. A Flor conta com uma incrível heroína, interpretada pela maravilhosa Paredes, um elenco de apoio tipicamente excêntrico, profundas reflexões sobre o comércio literário, o artista e sua arte – há escritores, editores, dançarinos e cineastas no filme – e segredos tanto privados quanto públicos. O vermelho característico é bem utilizado especialmente no figurino e na cena final diante de uma lareira no desfecho, aliado a um novo senso de composição de cena mais elegante com algumas cenas extraordinárias, especialmente a da chuva de papel durante uma manifestação estudantil. É também um filme mais amargo, que nos diz que a vida não se sonha, se vive e, assim como Leo aprenderá já na fase madura da vida, só quando entende-se isso é que se pode viver em paz. Um primor de filme, em resumo. Nota: 8/10

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Categorias:Cinema, Críticas

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