Como ‘A Forma da Água’ honra o cinema fantástico

Disse Brian De Palma (Um Tiro na Noite, Missão: Impossível) que o cinema mente 24 vezes por segundo. A famosa citação, que ilustra o poder que a linguagem cinematográfica tem de criar realidades próprias – mais ou menos próximas do mundo externo – certamente não foi pensada e proferida tendo em mente apenas o cinema de gênero fantástico, mas são filmes como A Forma da Água (2017), de Guillermo Del Toro, que dão a ela maior dimensão.

Em linhas gerais, conta a história de Elisa (Sally Hawkins), que trabalha na limpeza de um laboratório secreto do governo norte-americano e, lá, após se deparar com um ser aquático de forma humanóide que vem sendo estudado e tratado pelas autoridades como um possível trunfo no contexto da Guerra Fria, estabelece com ele uma relação de cumplicidade e afeto.

Tal como sugerido pelo argumento, a estrutura e a linguagem adotadas por Del Toro são abertamente fabulísticas, como demonstrado pelas várias inserções de elementos lúdicos e pela maneira como as personagens são concebidas, propositalmente, de forma caricatural. Trata-se de um universo com regras e códigos próprios, os quais, apesar de marcadamente singulares, não se distanciam em absoluto da realidade. Ao contrário, são construídos de maneira a refletir o “mundo real”, fazendo uso da hipérbole e da caricatura.

Isso, porque, antes de qualquer coisa, a narrativa tecida por del Toro se baseia na confrontação entre o modelo e o indivíduo. Entre símbolos de poder, retratados de maneira opressiva, e símbolos de emancipação, apresentados como fuga. Nesse sentido, é interessante notar como a fotografia trabalha a cor verde, presente do início ao fim da projeção, tanto como evocativa de esperança quanto como para ilustrar a lugubridade de aspectos do universo em que as personagens se inserem. Da mesma maneira, a violência gráfica que marca diversas cenas é contrabalanceada pela pureza do olhar que a protagonista lança a seu entorno.

É no tratamento dado às personagens, porém, que esses símbolos ganham contornos mais bem definidos. Elisa, assim como aqueles que a cercam, passa longe do que se definiria como uma pessoa adequada aos padrões tidos como desejáveis naquele universo – e no nosso. Mulher, muda, órfã e solteira, ela sustenta o seu dia a dia com graça e leveza, mas sem ignorar onde se insere naquele mundo. O antagonista – Strickland, vivido por um, como sempre, inspirado Michael Shannon –, por sua vez, representa tudo aquilo que se espera de uma pessoa “padrão”, criada “à imagem de deus”, como dito em certo momento. Homem, branco, pai de família, supremacista e servidor exemplar do governo, ele é apresentado como uma figura obcecada pela obediência aos padrões de poder do meio em que se insere – uma cena de compra de um carro é particularmente reveladora quanto a isso – e disposta a fazer o que for para que esses padrões não sejam desrespeitados.

O trunfo de A Forma da Água, no entanto, e talvez o fator que o torne tão agradável de se acompanhar, é que, no mundo fantástico do diretor mexicano, esses arquétipos de poder são alvo de violação, a exemplo de uma outra cena que envolve o mesmo carro citado acima, e de todo tipo de zombaria. É por compreender o potencial do cinema como veículo de escape – e não por acaso há uma cena literal nesse sentido – que del Toro assegura o espectador de que, naquele universo, é possível sair ileso ao dizer “foda-se” aos que insistem em não enxergar o valor do indivíduo por si só e a possibilidade de identificação e comunhão, mesmo que ela se dê porque ambas as partes se veem como incompletas. E é também por entender a natureza das feridas abertas que o mexicano se vale justamente delas como instrumento de transformação e redenção, em um dos climaces mais belos do cinema norte-americano recente.

Sim, a ode de del Toro aos solitários, marcados e desajustados, é, como tudo no cinema, uma grande mentira, conforme dito por De Palma. E é nisso, afinal, que reside a beleza da arte.

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Categorias:Cinema, Críticas

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1 resposta

  1. A arte usa de mentiras para contar a verdade.

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