Maratona Joon-ho Bong: revendo ‘O Hospedeiro’, ‘Tokyo!’ e ‘Mother’

Dando continuidade a nossa maratona iniciada com as críticas à Cão que Ladra Não Morde e Memórias de um Assassino, trago minhas opiniões apaixonadas sobre os três filmes subsequentes de Joon-ho Bong:

  • O Hospedeiro (2006)

Eu adoro quando um cineasta pega um gênero já batido, no caso os “filmes de monstro”, e lhe dá uma roupa nova. Se bem que em O Hospedeiro, Bong dá um guarda-roupa inteiro. É filme de monstro, mas também é drama, comédia escrachada, terror, suspense, ação e mais drama, sem nunca perder o fio da história: um pai com algum grau de debilidade mental (Kang-ho Song, sensacional com um cabelo loiro oxigenado de doer na vista) que se culpa pela suposta morte da filha raptada por um monstro, meio bagre meio alien. Quando descobre que ela pode estar viva, ele e sua família maluca e disfuncional (pai, irmã e irmão) não medirão esforços para salvá-la da criatura que se esconde nos esgotos de Seul. Ainda sobra espaço para fazer uma comentário ambientalista sobre as imprudências de galões de formol que são despejados no rio Han e dão vida à gigantesca criatura mutante. Metáfora mais explícita não há. Nota: 9.5/10

  • Tokyo! (2008)

O mundo cult teve um orgasmo cinéfilo quando, em 2008, Michel Gondry (Brilho Eteno de uma Mente sem Lembranças), Leos Carax (Sangue Ruim) e Bong Joon-ho decidiram dirigir uma antologia mostrando seus olhares estrangeiros sobre Tóquio, capital do Japão. O conto de Gondry, Design Interior, é o mais fraco. Meu preferido é o de Carax, Merde, em que Denis Lavant interpreta um homem estranho que vive nos subterrâneos da cidade e aterroriza a metrópole com bombas da segunda guerra mundial. Carax e Lavant trariam o personagem de volta no genial Holy Motors (2012), mas esse é um assunto para outro artigo. O conto de Joon-ho, Balançando Tóquio, também é um primor. Versa sobre um recluso homem que há 10 anos vive isolado em seu apartamento, sem contato com o mundo exterior. Aparentemente, essa é uma prática comum no país denominada hikikomori. Quando uma jovem entregadora de pizza desmaia em sua casa durante um terremoto, o eremita é obrigado a olhar nos olhos dela e – pronto – se apaixona. A moça possui botões em forma de tatuagem (ou seriam tatuagens em forma de botões?) no corpo que ativam certas funções, como tirá-la do coma após a batida, ao serem apertados. Ao descobrir que a entregadora também começou a praticar o hikikomori, ele não vê outra solução a não ser sair do seu isolamento para dissuadi-la da ideia. A história discorre sobre a modernidade do Japão, na qual as pessoas tendem a viver em reclusão voluntária, cada vez mais anti-sociais por não suportarem os ruídos da (in)comunicabilidade humana, com a tecnologia sendo uma mão na roda nesse momento, mostrando até mesmo o amor mecanizado por um botão. Lembra os tempos áureos de Black Mirror, ou seja, melhor elogio não há. Notas: Design Interior – 7/10, Merde – 8.5/10 e Balançando Tóquio – 8/10. Média geral: 7.8/10.

  • Mother – A Busca pela Verdade (2009)

É da própria relação mãe/filho aquele elo inexplicável capaz de mover o mundo através do amor, que muitas vezes confunde-se com obsessão. Joon-Ho tira proveito dessa natural dependência emocional para criar um grande drama sobre uma mãe tentando provar a inocência do filho com problemas mentais, acusado de assassinato. A premissa deságua em um suspense de primeira, originalíssimo com seus personagens que, ao contrário de Memórias de um Assassino, fogem dos comuns ao gênero policial. Basta dizer que aquela senhorinha miúda é a grande detetive do filme. O drama familiar retorna ao final para amarrar as pontas e deixar a gente enlevado em uma cena final que exala poesia. No seu quinto filme, já se desenham os temas que custam caro a Bong Joon-Ho. Todos os grandes cineastas têm os seus, que vão mastigando e cuspindo durante toda carreira. Alguns deles são discutidos novamente em Mother: o sistema policial sul-coreano corrupto e ineficiente, o desleixo com que são tratadas as pessoas debilitadas mentalmente – assuntos que desta vez o aproximam de Memórias – e a natureza egoísta dos sul-coreanos fora do âmbito familiar. No mais, a grande atriz Kim Hye Ja entrega uma performance sobrenatural como a Mãe, em uma entrega visceral ao papel. Destaco ainda, sem spoilers, a grande cena da revelação do assassinato, crucial para trama. O trabalho de câmera, o jogo de luz e sombra, a coreografia dos atores e a visão subjetiva de uma testemunha que conta história mostram a grandeza do Bong Joon-Ho.

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Categorias:Cinema, Críticas, Listas

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