Especial Almodóvar: os filmes do cineasta com seu ator-fetiche, Antonio Banderas

Em 1979, aos 19 anos, Antonio Banderas mudou-se para Madrid em busca de uma carreira de ator. Sendo um jovem esforçado, ele também trabalhou como garçom e modelo fotográfico enquanto não estourava. Naquela época, ele se juntou à trupe no Teatro Nacional da Espanha, tornando-se o membro mais jovem da companhia. Com seu sotaque andaluz, voz suave e profunda e beleza viril, as apresentações teatrais de Banderas chamaram a atenção do diretor Pedro Almodóvar, que o lançou no seu segundo filme Labirinto de Paixões (1982). Foi um casamento artístico perfeito, Banderas e Almodóvar juntaram forças para fazer em sequência os filmes mais inovadores e sexualmente provocativos durante dos anos 1980: Matador, A Lei do Desejo, Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos e Ata-me. A parceria foi interrompida por duas décadas quando Banderas decidiu aventurar-se – bem sucedidamente, diga-se – em Hollywood, sendo retomada em 2011 com A Pele que Habito. Em seguida fizeram Os Amantes Passageiros (2013) e Dor e Glória (2019), pelo qual Banderas ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes.

Já comentei sobre Labirinto aqui, agora deixo minhas avaliações sobre os demais clássicos oitentistas que fizeram juntos:

  • Matador (1986)

Na sequência de O Que Eu Fiz Para Merecer Isto?, Matador parece um retrocesso. Embora seja mais lúcido em sua loucura, é um filme muito arrastado. Tem suas qualidades, é claro: o vermelho mais sanguinolento do que nunca, as homenagens a King Vidor e seu Duelo ao Sol e, especialmente, a Mario Bava e o estilo giallo são uma delícia. Só a mente pervertida de Almodóvar para iniciar um filme com Nacho Martínez se masturbando e assistindo Seis Mulheres para o Assassino (1964). Banderas é certamente o melhor ator em cena, como o jovem homossexual reprimido que prefere ir para cadeia a aguentar a mãe carola. Vale pelo kitsch e o fetichismo. Nota: 6/10

  • A Lei do Desejo (1987)

Antes de qualquer coisa, um filme que começa com a nossa brasileira Maysa cantando Ne Me Quitte Pas nem merece meu respeito, é pura covardia, já entra no meu top imediatamente. Aqui que pela primeira Almodóvar une seus excessos de maneira orgânica para criar seu próprio cinema e entregar seu primeiro filme verdadeiramente excelente. Apresenta a maioria de suas musas como Rossy de Palma, Bibi Anderssen, a divina Carmen Maura (na pele de uma mulher transexual, e quem reclamar que é inapropriado uma mulher cis no papel não entende nada de cinema e de Almodóvar), além de Banderas, novamente como o jovem gay reprimido pela família que vai à loucura. Todos os temas que permeiam seu trabalho estão aqui: sua obsessão com telefones, a polícia patética, o uso de drogas (cocaína em particular), as propagandas nonsenses inseridas no meio da trama, as famílias disfuncionais, a ambiguidade sexual, a repressão da Igreja Católica e a cidade de Madri. Fora que é uma grande história de amor. Amor almodovariano, é lógico: irracional, inconsequente e imoral. Nota: 8.5/10

  • Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988)

Não sei o que há no cinema de Almodóvar que as cores são mais intensas. Neste filme de 1988, o vermelho é mais vermelho, o azul é mais azul e o rosa é mais rosa. Digo mais: o cinema é mais nobre por que é mais teatro. Foi o primeiro filme do diretor indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e que fez o mundo ficar obcecado por aquele diretor abusado da Espanha. É um primor narrativo com suas mulheres passionais ao extremo. O cineasta cria uma comédia amalucada – histericamente hilária na maioria das vezes, e comovente quando precisa ser – cheia de personagens e sub-tramas guiadas pela irracionalidade que culminam em um ato final que incluem em sequência: uma surreal perseguição nas ruas de Madri, tiros em um aeroporto e o começo de uma bela amizade entre duas mulheres provocada por uma sopa de gaspacho adulterada, vermelha como sangue. La Lupe entoando o cafoníssimo bolero Puro Teatro durante os créditos finais encerra com chave de ouro. Para compreender a rápida evolução do autor, basta comparar o final desse filme com o final de seu segundo filme, Labirinto de Paixões. É bem parecido, com a crucial diferença entre o amadorismo e o amadurecimento. No filme de 1982, há um descontrole provocado pela inexperiência, aqui já temos um homem calejado por suas experiências com um completo domínio de sua arte. Nota: 9/10.

  • Ata-me (1989)

Não quero nem imaginar o rebuliço que esse filme ia causar se lançado hoje em dia. O tribunal da internet, revolucionário em seu puritanismo, especialmente as feministas mais arraigadas, seria capaz de pedir a cabeça do diretor em praça pública. É o seguinte: Ricky (Banderas) acaba de ser liberado do hospício. A paixão pela ex-atriz pornô, agora atriz de filme sério, Marina Osorio (Victoria Abril), cura sua loucura e os médicos liberam-no. Com 23 anos, 50000 pesetas e sozinho no mundo, ele sequestra e aprisiona Marina para convencê-la a ser sua esposa, com a garantia de arranjar emprego e ser um bom pai para seus filhos. A tática dá certo (risos). É a romantização da síndrome de Estocolmo, não tem como defender, porém, vejamos: direção rigorosa – confere; atuações acima da média – confere; roteiro coeso – confere; erotismo sem vulgaridade – confere; controvérsias, desconforto, incômodo – confere. Não posso deixar de apostrofar: é uma obra-prima. Não posso dar outra nota se não 10.

Demais textos do especial de Almodóvar:

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Categorias:Cinema, Críticas

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