Keanu Reeves e a celebração do ator medíocre

Keanu Reeves faz cinema desde os 25 anos, mas agora na casa dos 50 está recebendo mais amor do que nunca dos fãs. Virou até deus de uma religião: o Keanuísmo. Todos nos lembramos dele por seus papéis icônicos em Velocidade Máxima e Matrix, e John Wick que o colocou de volta no centro das atenções, além da comédia romântica Meu Eterno Talvez em que interpretando a si mesmo reforça a sua persona na mente do público. Fora das telas, o ator tem uma admirável atitude de igualdade respeitosa com seus fãs. Não só isso, todos sabem que Reeves é legal e centrado apesar de ter um passado trágico, o que o torna muito mais adorável. De acordo com o autor Reza Aslan, Reeves comprou a propriedade que agora é a pré-escola de seu filho apenas para que as crianças da comunidade tenham um colégio para frequentar. Não só isso, o ator também é conhecido por ser extremamente respeitoso com as mulheres, andar de metrô e financiar instituições de caridade sem fazer um grande alarde disso. Portanto, o ressurgimento de Reeves na tela grande lembrou-nos sobre lealdade e humildade e, atualmente, é tudo o que a internet precisa para lembrar que o mundo não é uma vala de esgoto sem fundo.

Não há dúvida de que Reeves é universalmente amado por quem ele é como pessoa – mas quando se trata de seus talentos dramáticos a história é diferente. Ele continua sendo como um pastel de vento, atraente por fora e… bom, acho que não preciso explicar a expressão. Pesquise ‘piores atuações do cinema’ no YouTube e sua interpretação em Drácula de Bram Stoker sempre estará lá marcando presença. Muitos cinéfilos e críticos – incluindo esse que vos fala – sabem que suas atuações são de uma nota só, no entanto, antigamente ele pelo menos escolhia projetos bons, que diminuíam a atenção para si. Essa é uma tática utilizada por zilhões de atores por ai. Muitos que reprovam sua, hã, falta de complexidade facial, amam Velocidade Máxima, Caçadores de Emoções, Garotos de Programa e Matrix – incluindo esse que vos fala. Ele sabe disso e é por isso que continua sendo humilde sobre sua celebridade. Uma espécie de recompensa e pedidos de desculpas. Como não amar? Mas não há como sustentar uma carreira longeva desse modo e isso que incomoda. Hoje em dia, Reeves interpreta o mesmo tipo de herói de ação em todos os filmes e ainda assim seu estilo de atuação é considerado perfeito para os filmes de John Wick, que não se segurariam sozinho sem ele (será mesmo?). Em outras palavras, agora Keanu é bom e os filmes são ruins – sem que ele tenha contribuído nada para isso. Foi a insistência que fez de Reeves uma estrela de ação robusta e confiável, mesmo quando os filmes são de razoáveis para baixo (Constantine) ou desconcertantes (Bata Antes de Entrar). Com o recente sucesso de John Wick 3 podemos esperar mais filmes da franquia no futuro.

Isso tudo me lembra o caso de Clint Eastwood, outrora grande galã de Hollywood. O lendário Sergio Leone sempre disse que como ator Eastwood tinha duas expressões: uma com chapéu e outra sem chapéu. Com Keanu, podemos dizer que ele adquiriu duas expressões: uma com revólver e outra sem revólver. É triste por que nos clássicos dos anos 1990 e em A Casa do Lago, que revi recentemente, ele podia não ser brilhante, mas pelo menos não estava acomodado. Talvez ele não queira, certamente não precisa, mas seria bom vê-lo usando seu mito para o bem do cinema, para o bem da arte. Ou talvez ele precise ainda ser descoberto por alguém para não haver desvios éticos e estéticos (basta comparar Antonio Banderas nos filmes de Pedro Almodóvar e Banderas sem Almodóvar), por que não se pode viver só de Sandra Bullock. É certo que muitos atores vivem da simpatia em Hollywood como Ashton Kutcher, mas mesmo ele se desafiou em Jobs. Errou feio, mas tentou. O próprio Eastwood está hoje em dia acima de qualquer suspeita.

O tão celebrado astro não é um deus, na verdade, está precisando de um guia, visto que celebrar Keanu Reeves é celebrar a mediocridade que impera em Hollywood. Mais: é celebrar cinema como extracampo, não como campo. Não quero ser amargo e criar brigas, concordo que Reeves é bom demais para este mundo, mas só digo que o cinema é bom demais para Keanu Reeves.

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Categorias:Cinema, Crônicas e Artigos

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