Especial Almodóvar: revendo o peculiar ‘O Que Eu Fiz Para Merecer Isto?’

Que filme! Que Fiz eu Para Merecer Isso? (1984), quarto longa-metragem de Pedro Almodóvar, conta a história de uma família disfuncional em Madri: Gloria (Carmen Maura, perfeita) é uma faxineira, viciada em calmantes, vivendo em um apartamento minúsculo com Antonio (Angel de Andrés López), seu marido ranzinza, um taxista que venera uma cantora alemã de quem era motorista e o fez criar uma meia simpatia pelo nazismo. Ele também é um falsificador de mão cheia que quer passar o dom para seus filhos: um adolescente que vende heroína, e o outro que apesar da pouca idade já dorme com homens bem mais velhos. A sogra de Gloria (a sempre impagável Chus Lampreave) mantém água engarrafada e cupcakes trancados a sete chaves no seu quarto, vendendo-os para a própria família. Agora, me diz você que nunca viu o filme, só de ler esse resumo, já viu algo parecido?

A história continua com um casal de escritores alcoólatras que elaboram um plano para falsificar um manuscrito como se fosse as memórias de Hitler, se Antonio aceitar transcrever à mão com a letra do ditador. Ele concorda, contanto que a cantora alemã finja ser a dona original, já que sua afinidade com o nazismo dará credibilidade à história. Enquanto isso, passando por dificuldades financeiras, Gloria “doa” o filho menor a um dentista enlouquecido por sexo, e a avó decide criar um lagarto de estimação chamado Dinheiro. E isso por que não ainda não falei das vizinhas malucas de Gloria, uma prostituta que sonha com Hollywood, Cristal (Verónica Forqué) e a mãe abusiva de uma criança com poderes de mover objetos com a mente.  O meu único senão com o filme seria essa sub-trama sobrenatural. A gente sabe que Almodóvar é um provocador, um arruaceiro cinéfilo, mas ele estava indo tão bem apenas com seu drama social, cru e agridoce, de modo que a menina com poderes místicos deixa uma sensação destoante no ar.

Contudo, vejo isso apenas como um dos problemas por se ter uma mente tão original, divertida e absurda. O atrevimento sempre soa mais excitante, mas às vezes as ideias plausíveis e passíveis de acontecer são o que há de melhor. Explico: é de impressionar a naturalização, o não-julgamento, com que Almodóvar trata as relações humanas nesse filme. Para ele, quem conduz o mundo são os pervertidos (pedófilos, fetichistas sexuais), os perversos (nazistas, falsificadores, assassinos) e os perdidos (adúlteros, impotentes, traficantes, prostitutas sonhadoras e velhos sovinas).  Seres tão saborosamente reais – que seriam condenados na visão de quaisquer outros diretores – que não havia necessidade de inserir entidades sobrenaturais na trama. Na visão de Almodóvar, pessoas normais (vou usar essa palavra, na falta de uma melhor) são anti-naturais, são a exceção assim como Gloria, que se rende ao absurdo da vida, mas acabará fatalmente derrotada e não há ópio que a salve de sua condição.

Falando assim até parece que a história é um tratado social, mas não é. É leve, melancólica e bizarra com o toque Almodóvar, cheia de enquadramentos bem pensados e os vermelhos fortes característicos começando a se sobressair nos figurinos e cenários. Qualquer escorregão que ele tenha cometido na dicotomia piração/realidade já seria corrigido, dois anos depois, com seu primeiro filme verdadeiramente excelente: A Lei do Desejo (1987), que comento no próximo texto especial sobre sua relação com Antonio Banderas.

 Nota: 7,5/10

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Categorias:Cinema, Críticas

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