Maratona Joon-Ho Bong: ‘Cão que Ladra não Morde’ e ‘Memórias de um Assassino’

Já havia assistido a quase todos os filmes de Joon-Ho Bong (na verdade não são muitos, apenas oito) quando decidi revê-los à procura de um conjunto de marcas que definam seu cinema. Trata-se de um diretor sul-coreano de 49 anos que usa muito humor negro para falar da sociedade e política do seu país através dos gêneros de terror e policial, o que o torna muito popular no mundo inteiro. Abaixo, pequenas críticas de seus dois primeiros filmes:

  • Cão que Ladra não Morde (2000)

Imagine se os Irmãos Coen tivessem escrito e dirigido um episódio de Seinfeld. É o que me lembra Cão que Ladra. A estreia na direção de Joon-ho é um deleite cruel e engraçado (e surpreendentemente leve), que mostra o então novo cineasta tentando esculpir seu próprio estilo narrativo e, embora seja menos refinado que seus trabalhos subsequentes, não há como negar que é envolvente do começo ao fim. A história segue Yun-ju, um professor desempregado, cuja esposa está grávida. Ele é incomodado por um cachorro que late fino e incessantemente (um pinscher, raça insuportável) e o perturba no grande bloco de apartamentos onde mora. Decide, então, raptar e matar o pobre pet. Mas teria ele coragem? Pior: teria ele sequestrado o cão certo? O filme inicia com uma cena que pode enfurecer muitos defensores de animais, mas Bong vai adiante com seu senso de humor macabro, ajudado por um excêntrico conjunto de personagens, todos habilmente trazidos à vida por seu elenco afinado.

O gigantesco condomínio onde a história se desenrola é um cenário ideal para que o diretor movimente sua câmera habilmente pelos longos corredores e curtos apartamentos – com direito até a uma frenética perseguição que se inicia no subsolo e aproveita-se espacialmente da locação. As melhores tomadas são feitas de longe com a câmera parada, mas com a ação se desenrolando, ora devagar, ora rapidamente. De modo geral, é um começo empolgante para o cineasta atualmente reverenciado. Ele faz uso de todos os elementos narrativos que iria aperfeiçoar em seus filmes posteriores: tratar assuntos pesados como desemprego, solidão e corrupção de uma forma ousada, mas engraçada, dando a cada personagem o seu quinhão de tempo na tela, e renderizando um filme sem amadorismo, mas com paixão e sinceridade. Nota: 7,5/10

  • Memórias de um Assassino (2003)

Um filme de serial killer excelente, uma mistura de Seven com Zodíaco, do David Fincher. A história começa em 1986 na província de Gyeonggi, que vive em estado constante de alerta devido à proximidade com a Coreia do Norte.  É inspirado na história real do primeiro caso de serial killer da Coreia (ainda não resolvido), que estuprava e assassinava jovens mulheres. O tempo e lugar único oferecem uma renovação de ares para os thrillers sobre assassinatos em série que geralmente acontecem em cidades grandes, devassas e poluídas. Mas como a maioria dos filmes que tem sua própria grandeza, são suas particularidades que o fazem se sobressair por dois motivos.

Em primeiro lugar, há o clima: uma fotografia assombrosa com uma chuva persistente sempre caindo à noite na pequena vila na qual a história se passa, com sombras se espalhando pelos campos fantasmagóricos, com figuras espreitando na floresta e com duas cenas de perseguição a pé magistralmente coreografadas nestes cenários; uma trilha sonora pungente ajudada pelo uso arrepiante de uma música pop coreana, Carta Triste, que pode ou não ter relação com os assassinatos e a direção vigorosa temperada com doses fabulosas de alívio cômico que mantém o filme mais e mais intrigante a cada ato.

Em segundo lugar, há o desenvolvimento dos personagens. Os detalhes que vão revelando aos poucos as almas assombradas dos detetives do caso são nada menos que brilhantes. Há um comentário sobre machismo no âmbito policial, com uma jovem detetive tentando desesperadamente mostrar suas habilidades na solução de crimes enquanto precisa servir xícaras de café fresco aos detetives chauvinistas. Mas o grande duelo do filme é entre o detetive forasteiro e correto que vem da capital Seul e afirma, entre outras coisas, que os documentos nunca mentem (a ironia brutal no clímax o desespera) em contraponto aos métodos primitivos utilizados pelo detetive local, que vão desde falsificação de provas para culpar antes e julgar depois à tortura. Os efeitos da investigação sobre os detetives são devastadores, que vão aos poucos ficando desesperados, no caso do detetive da cidade grande, e letárgicos, no caso do policial do interior. É quase como uma transferência de personalidades. Pena que seja longo demais e um pouco cansativo, mas a magistral cena final que quebra a quarta parede é direcionada a um espectador certo, prestem atenção. Nota: 8/10

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Categorias:Cinema, Críticas

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