Especial Almodóvar – Os 3 primeiros filmes: ‘Pepi, Luci e Bom’, ‘Labirinto de Paixões’ e ‘Maus Hábitos’

Pedro Almodóvar, o cineasta espanhol mais aclamado internacionalmente, de modo que virou quase sinônimo quando nos referimos ao cinema deste país, nasceu em 1949 na pequena cidade de Calzada de Calatrava na empobrecida região espanhola de La Mancha.  Almodóvar não podia estudar cinema porque não tinha dinheiro para isso quando mudou-se para Madri em 1968. Ademais, as escolas de cinema foram fechadas no início dos anos 70 pela ditadura de Francisco Franco. Em vez disso, ele encontrou um emprego na companhia telefônica espanhola e economizou seu salário para comprar uma câmera Super 8. De 1972 a 1978, dedicou-se a fazer curtas-metragens com a ajuda de seus amigos. As “estreias” desses primeiros filmes ficaram famosas em meio ao rápido crescimento da contracultura espanhola. Em poucos anos, Almodóvar se tornou uma estrela de La Movida Madrileña (a ação madrilena), movimento cultural anárquico, debochado, alternativo e underground que durou desde o fim da ditadura franquista em 1975 até 1982.

Os três primeiros filmes comerciais de Almodóvar foram Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão (1980), Labirinto de Paixões (1982) – ambos podem ser incluídos como parte de La Movida – e Maus Hábitos (1983). É simplesmente incrível como ele evoluiu como autor em pouco mais de três anos. Abaixo algumas considerações sobre cada obra:

  • Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão (1980)

Nadando na onda da liberdade democrática outrora altamente reprimida, o filme não tem limites. De sadomasoquismo ao famigerado golden shower, Pepi, Luci, Bom é como uma explosão há muito tempo contida que jorra em desordem para todos os lados. Demorou dois anos para ser feito devido às dificuldades de Almodóvar para conseguir financiamento. Ao fim, ao cabo, o orçamento de 20.000 libras foi levantado em grande parte pelos amigos com o filme sendo filmado apenas aos finais de semana. Vale mais como curiosidade histórica e como representação pictórica do movimento artístico, mas já se vê traços da ousadia artística de Almodóvar como nos comerciais das Calcinhas Putón criados por Pepi (Carmen Maura), que interrompem bruscamente a narrativa inserindo uma nova linguagem sem nos tirar do filme. Nota: 6/10

  • Labirinto de Paixões (1982)

Labirinto já tem aquelas histórias rocambolescas características do diretor, mas ainda sem a sofisticação que a maturidade foi lhe trazendo. Sexília (eu simplesmente amo esse nome), interpretada por Cecilia Roth, é uma ninfomaníaca que se apaixona por um até então homossexual, Riza Niro (Imanol Arias), e tem o amor retribuído por ele. Riza é o filho fugitivo do imperador do Tirã, que um dia transou descompromissadamente com Sadec (Antonio Banderas), um terrorista com olfato super aguçado que se apaixona por ele sem saber que o rapaz é o alvo de sequestro do seu grupo terrorista. O filme quer transportar aqueles ares de comédias amalucadas de Hollywood dos anos 40 para uma Madri punk e kitsch dos anos 80 (nunca esqueçamos que Almodóvar é cinéfilo enciclopédico). Fica só na intenção mesmo, por que no desfecho, quando os vários personagens que vão entrando na trama se reúnem em um aeroporto, a deliciosa confusão aventada não se concretiza, o que lhe dá um aspecto anticlimático. Portanto, é um filme perdido entre o que Almodóvar era e o que estava querendo ser. Nota: 5.5/10

  • Maus Hábitos (1983)

O primeiro filme de Pedro Almodóvar a ter produção executiva e ser feito para uma companhia cinematográfica, em vez de ser feito aos trancos e barrancos como seus projetos anteriores. Logo nota-se, por que é um filme bem coeso, um melodrama com ideias ousadas, embora enfadonho. Mesmo assim há de se bater palmas, por que vê-se claramente um autor tentando controlar seus impulsos juvenis para melhorar na sua arte. Ele perde em fluidez de ritmo, mas ganha em termos narrativos. O alvo do cineasta aqui é a contradição católica. Ora, se Deus nos ama e vai perdoar nossos pecados independentemente da gravidade, ora se nosso coração é bom, mas somos errantes por natureza, então tá liberado pecar. Pensando nisso, temos a Irmã Rata de Esgoto, a Irmã Perdida, a Irmã Víbora e a Irmã Esterco no convento das redentoras humilhadas que têm esses nomes como um lembrete de quão indignas são. Elas pecam à vontade usando drogas pesadas, desejando outras mulheres, escrevendo livros sensacionalistas e subornando velhinhas. O filme já possui um daqueles momentos “isso é tão Almodóvar” quando a Irmã Perdida toca tambor para que seu tigre de estimação, que vive escondido no convento (!?), se sinta na África. É também um traço absurdista que orgulharia Luis Buñuel (O Anjo Exterminador, O Discreto Charme da Burguesia), a quem Almodóvar considera um mestre e revenciaria em vários momentos de sua carreira. Nota: 7/10

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Categorias:Cinema, Críticas

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