Na 5ª temporada de ‘Black Mirror’ o futuro já chegou, então por que não abraçá-lo?

Black Mirror, criada por Charlie Brooker, estreou no Reino Unido em 2011, quando ainda desenhava-se uma distopia hiperconectada de mídias sociais e smartphones. Oito anos depois, a tecnologia já avançou o suficiente para que a realidade dos três longos episódios da curta quinta temporada constatem que o futuro imaginado já está nas vizinhanças e não mais nos bairros distantes.

Desde a primeira temporada, o tom também foi mudando de sátira ácida de tecnologia para crônicas sentimentais que envolvem tecnologia. Dizem que o problema está na Netflix, que passou a produzir a série desde a terceira temporada, mas não vejo qual interesse que o serviço de streaming teria em podar o pessimismo de Brooker, já que foi justamente o alarmismo tecnofóbico que fez com que a antologia caísse no gosto do público. Prefiro pensar que o próprio autor mudou com o passar do tempo. Pelo menos, a temporada é melhor o experimento Bandersnatch.

Abaixo, minhas impressões dos três episódios:

  • Striking Vipers

Anthony Mackie e Yahya Abdul-Mateen II são os melhores amigos Danny e Karl. Eles costumavam passar longas noites jogando seu videogame de luta favorito chamado Striking Vipers na juventude. Onze anos depois, Danny está casado, tem um filho e está morando nos subúrbios, enquanto Karl é um solteirão namorando mulheres muito jovens. Karl presenteia Danny com uma nova edição do Striking Vipers, agora em realidade virtual, que transmite a sensação real das pancadas. Dentro do jogo, Danny é a lutadora Roxette (Pom Klementieff) e Karl é Lance (Ludi Lin). No game, Danny e Karl começam a brigar e acabam se beijando. Mais do que beijar: Vipers acaba se tornando uma experiência sexual ultrarrealista. Logo, Danny está tendo um caso virtual com seu melhor amigo. Antonie Mackie, o novo Capitão América, está excelente dividido entre a luxúria reprimida e a diversão, como se não conseguisse descobrir se estava traindo sua esposa ou não. É uma ideia bacana, um comentário engraçado sobre o conceito do “bromance”, que sempre sugere que há algo mais entre amigos que não se desgrudam. À título de curiosidade: o episódio apesar de falado em inglês e sem referências diretas ao Brasil, foi filmado em São Paulo. Deram uma limpada na cidade para passar um aspecto futurístico e o resultado ficou muito bonito.

Nota: 8/10

  • Smitheerens

De todos os episódios de toda série, esse é o mais atual. Em outras palavras: já está acontecendo, acordem. Andrew Scott, o Padre de Fleabag (alias, já viram Fleabag?), está ótimo de novo aqui como Chris, um misterioso motorista de um serviço estilo uber que só aceita clientes que saem da Smithereens, uma grande empresa de mídia social, com sede em Londres. Ele sequestra um homem (Damson Idris) que parece um executivo: jovem, ocupado, bem vestido de terno, mas… o cara é apenas um estagiário. Isso é só o começo, o rapto vai comicamente dando errado. Ele acaba sendo perseguido por guardas de trânsito e estacionando num campo remoto fora da cidade, cercado pela polícia, curiosos com smartphones e, claro, a imprensa abutre. Circo montado, Chris pede para falar com Billy Bauer (Topher Grace), um dos fundadores da Smithereens, que é obrigado a sair de seu retiro desconectado de tecnologia em Furnace Valley, Utah.

A rede social de Bauer tem acesso a mais informações do que os Estados Unidos ou o Reino Unido, percebe-se conforme o episódio transcorre. A atuação de Grace é notável e mais complexa do que a pura imitação de Mark Zuckeberg. Sim, por que o bom entendedor vai percebendo que o episódio está falando claramente sobre o poder do Facebook sobre nossos dados e nossa vida. Bauer chega a comparar a força dos algoritmos da sua grande criação a um tubo de crack ou um cassino de Las Vegas. Contudo, um pedido insano que Chris faz acaba funcionando e as maravilhas das telecomunicações o ligam a representantes da América, da Grã-Bretanha e de uma das empresas de tecnologia mais poderosas do mundo, todos de certo forma acabam invisivelmente presentes em um campo na Inglaterra. Smitheerens é puro otimismo tecnológico.

Nota: 8/10

  • Rachel, Jack e Ashley Too

Miley Cyrus interpreta Ashley O, uma popstar de cabelos roxos que canta sobre empoderamento em suas composições, mas na vida real é bem depressiva. Sua falsa positividade atrai a adolescente solitária Rachel (Angourie Rice) e enfurece a irmã de Rachel, Jack (Madison Davenport), que é fã dos Pixies e rock alternativo. Ashley, que é orfã, tem uma tia-gerente controladora (Susan Pourfar), que está desconfiada do novo interesse da sobrinha por músicas mais sombrias e profundas. Enquanto isso, Rachel recebe um presente de aniversário muito especial: Ashley Too, uma adorável robôzinha programada com o escaneamento do cérebro da estrela pop para ser melhor amiga dos fãs das cantora. Por umas e outras, a verdadeira Ashley acaba em coma, mas sua ambiciosa tia e seu empresário ainda conseguem um novo álbum, retirando músicas e letras diretamente de seu cérebro. O episódio tem algumas soluções meio Disney – será que foi influência da ex-Hannah Montana? – e ideias bem clichês sobre o mundo pop, mas a boneca Ashley Too o salva da mediocridade. É um filme da Disney se a companhia permitisse drogas e palavrões.

Nota: 6/10

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Categorias:Críticas, Televisão

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