Revendo ‘Razão e Sensibilidade’, de Ang Lee: a essência de Jane Austen em um filme

Se não fosse pelos romances de Jane Austen e suas adaptações para o cinema e a televisão, não estaríamos muito familiarizados com a galanteria inglesa e os hábitos burgueses do início do século XIX. Sua obra resumiu uma época em que as mulheres não tinham como atravessar a vida sem pensar em casamento, de um modo que desagradaria até quem não se diz feminista nos dias de hoje. Ela respeitava as convenções, mas fazia comentários sociais poderosos, tanto que nas suas histórias, as protagonistas nunca se casaram com alguém que não amavam. E isso é o máximo que elas podiam fazer à época. O matrimônio era o fim, mas o amor era o meio para alcançá-lo, enquanto o casamento de conveniência era coisa de medíocres.

Agora, há um interessante ponto de comparação entre seus dois romances mais célebres: Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito. Razão foi o primeiro sucesso de Austen, escrito em uma idade muito jovem, ainda que fale de personagens evoluindo no reino da vida adulta, enquanto em Orgulho, escrita por uma velha Austen, as heroínas são as irmãs adolescentes Bennet. É como se Austen fosse uma pintora que tivesse que ir até o topo da montanha para ter uma visão clara de uma planície depois de ter pintado a montanha da planície. Em Razão, as irmãs Dashwood são personagens unidimensionais. Elinor (Emma Thompson) é reservada e introvertida, enquanto Marianne (Kate Winslet) é romântica e extravagante. Em Orgulho, a valentia masculina e a sorte não eram elementos com que contar, e muitas viagens de ida e volta permitiam à heroína confrontar seu pretendente. É possível que Orgulho fosse um pouco moderno demais, enquanto Razão é mais obediente à percepção do papel da mulher na época (bastante estática), mas a direção de Ang Lee na adaptação mais conhecida de 1995 e o roteiro escrito pela própria Thompson, funcionaram de tal forma que a busca para o casamento não é realmente a parte mais interessante do filme. Assim como histórias típicas de Austen, é claro, há uma grande quantidade de paixões e decepções, ou pretendentes românticos surgindo no momento inadequado e forçando as mulheres a se alinharem para receber prontamente seu anfitrião. Alguns são sombrios e amáveis (Alan Rickman), outros tímidos (Hugh Grant) e alguns perfeitos demais para serem verdadeiros (Greg Wise), mas todos eles têm uma coisa em comum: são convenientemente chamados ao escritório em Londres sempre que o casamento parece muito perto. Contudo, a verdadeira questão para o diretor chinês é como essas irmãs interagem.

As adaptações de Austen têm essa peculariedade de que a abundância de palavras e enredos às vezes pode distrair de momentos mais simples que realmente as elevam mais do que qualquer monólogo ou discurso. Mas, por mais confusos que sejam esses filmes, sua qualidade está em outros lugares. As histórias de Jane Austen são hinos estimulantes de eloquência e alfabetização, seja quando os personagens escrevem correspondências íntimas, compartilham seus pensamentos pessoais com seus amigos ou parentes ou tentam transmitir uma mensagem forte respeitando as conveniências. Shakespeare ficaria honrado. Você termina o filme e só quer expressar seus sentimentos com a mesma economia de obviedade ou paixão inflamada. Há algo simplesmente irresistível nesse filme em particular, ele faz você perceber o quão perto ainda estamos desta época pela escala da história, mas anos-luz à frente no que diz respeito à mediocridade. Créditos para Lee e Thompson que souberam captar a essência de Austen.

No fim, Razão e Sensibilidade nos diz algo importante: a força da gente não depende do que fazemos ou realizamos, mas como podemos resistir às crueldades da vida sem necessariamente triunfar sobre elas. Durante todo o filme, criamos simpatia por Marianne, Elinor, sua mãe (Gemma Jones) e a forma como eles endossaram ou se rebelaram contra convenções em momentos cruciais em que coisas mais simples eram expressas de maneira complicada. De fato, tudo o que aconteceu é devido a algo dito, uma promessa ou um mal-entendido. Tudo advém da maneira como as palavras são usadas, mal utilizadas ou distorcidas e essa é uma das muitas delícias nesse filme luxuoso.

Nota: 8/10

Leia também:

O orgulho e preconceito em ‘Orgulho e Preconceito’

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Categorias:Cinema, Críticas

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