‘After Life’, da Netflix: Ricky Gervais atinge a maturidade artística

Sou fã de Ricky Gervais antes de ser modinha. Brincadeira. Mas já havia devorado suas séries Extras (2005-2007) e The Office (2001-2003) muito antes de ele causar com seu humor ácido sendo apresentador do Globo de Ouro em três anos consecutivos, de 2010 a 2012. Aliás, se repararem bem a melhor fase da adaptação americana de The Office (2005-2013) era nas suas primeiras temporadas, quando ainda baseada na versão original britânica.

Com After Life – Vocês Vão Ter que Me Engolir, disponível na Netflix, Gervais continua a me surpreender. Ele é muito engraçado, com sua própria marca de humor que muitas pessoas acham ofensiva, mas eu gosto dessa mistura de misantropia com acidez que gera inevitavelmente uma corrosão constrangedoramente engraçada. De vez em quando, porém, o texto dele fica sério e reflexivo e fico impressionado com o nível de profundidade, humildade e gentileza que ele traz para suas criações.

After Life é a história de um homem, interpretado pelo próprio Gervais, que acabou de perder sua amada esposa e com ela a vontade de viver. Ele provavelmente teria se matado imediatamente, se não tivesse um cachorro para cuidar. Então ele levanta da cama todos os dias e leva uma existência desprovida de qualquer fragmento de felicidade ou esperança. Ele sente uma atração pela morte, mas nunca chega a beijá-la. Irrita e preocupa as pessoas, mas não abandona os seus princípios só para agradá-las. As pessoas só o incomodam tanto, porém, porque continuam vivendo apesar de seu mundo ter desabado. Pior de tudo, ele afirma não se importar com a própria vida a ponto de deliberadamente colocá-la em perigo, mas como sempre acontece, as únicas pessoas que sofrem por seu comportamento são justamente as que ainda se importam com ele, especialmente os companheiros de trabalho do pequeno jornal na pequena cidade onde ele mora no interior da Inglaterra.

A série tem apenas seis episódios e uma segunda temporada garantida – eu amo essa tradição britânica de poucas temporadas com poucos episódios, é a verdadeira economia criativa, vista também em Fleabag  e Bodyguard – dá pra assistir em um suspiro. Para quem quiser conhecer mais sobre o comediante, recomendo, também da Netflix, o seu espetáculo de stand-up comedy mais recente: Humanidade, para conhecer melhor o ogro mais gentil que existe.

Nota: 8/10

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Categorias:Críticas, Televisão

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