Esqueça ‘GoT’, todo mundo precisa ver a série ‘Fleabag’

Se você nunca ouviu falar da britânica Phoebe Waller-Bridge, ainda vai ouvir com certeza. Ela é a roteirista do próximo filme de James Bond, está sendo premiada pela escrita da badalada série Killing Eve e, entre 2016 e 2019, escreveu, dirigiu e estrelou uma das melhores séries que vi em muito tempo: Fleabag. São apenas duas temporadas de seis episódios curtos que poderiam ser dois filmes distintos, por que cada uma tem arcos perfeitos, mas uma complementa a outra.

Fleabag (Waller-Bridge) é uma jovem adulta tentando viver a vida em Londres e lidando com os problemas que as pessoas lidam lá pela casa dos 30 anos. Waller-Bridge usa esse pano de fundo simples para falar da vida (sua relação complicada com a irmã que ama e as saudades da mãe recém-falecida), amor (especialmente na segunda temporada), família (a madrasta interpretada pela atual ganhadora do Oscar, Olivia Colman, é talvez a personagem mais insuportável já escrita), sexo (ela transa bem e muito, mas ainda assim é meio imatura no assunto) e luto (ela perdeu a melhor amiga e sócia e se sente culpada pela morte dela). Waller-Bridge passa de um tema ao outro de uma maneira tão fluída que parece que está narrando um conto de fadas já bem batido, mas não, é tudo muito engraçado e profundo.

A série, disponibilizada pelo Amazon Prime Video, é a adaptação de um espetáculo teatral de 2013, em que a atriz conversa com a plateia. Ela leva a experiência para as telas, quebrando a quarta parede em muitos momentos, tornando assim o público sua testemunha, juiz e cúmplice. Aliás, me arrisco a dizer que ninguém faz isso melhor que ela. Às vezes, em questão de milésimos de segundos ela fala com a gente, suspira, lança um comentário maldoso, dá uma piscadinha e a cena continua como se nada tivesse acontecido. É admirável.

A primeira temporada valoriza mais o suspense que o romance e acaba com apenas uma parte da vida de Fleabag resolvida e a outra parte totalmente despedaçada. Na segunda, Waller-Bridge resolverá as pendências da primeira e introduzirá um padre na história (o ótimo Andrew Scott) que vai virar a vida da moça de cabeça para baixo, por que com Fleabag nada é muito fácil. É um arco tão bem construído que quase dá vontade de virar católico só para pecar com mais graça. Mas o quero destacar é que o Padre (muitos personagens não tem nome) é o único a perceber que Fleabag quebra a quarta parede a ponto de nós começarmos a nos perguntar se ela está realmente falando com a gente ou simplesmente é louca – dando novos ares para um recurso dramático que já estava ficando batido. Enfim, é uma deliciosa metalinguagem, que começa bem cínica e termina dolorosamente romântica, mas nunca perde a graça e o encanto.

Nota: 9/10

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Categorias:Críticas, Televisão

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