‘Nós’, de Jordan Peele: o filme mais thriller que existe

É quase meia-noite e algo maligno está te espreitando no escuro, sob a luz da lua. Você vê algo que quase pára o seu coração e tenta gritar, mas o terror te silencia antes de você poder fazer algo. Você começa a congelar enquanto o horror te olha bem nos seus olhos. Você está paralisado! Porque isso é uma noite de terror e ninguém vai te salvar da fera pronta para atacar.

O parágrafo acima é a livre tradução da música Thriller, de Michael Jackson, mas pode ser também a sinopse de Nós, de Jordan Peele, sem problema nenhum. Genial, não é? E esse é apenas um dos exemplos da grande magnitude que Peele alcançou com a sua obra, desde já umas das melhores de 2019. Aliás, a camiseta que a menina Adelaide (interpretada por Madison Curry na infância e pela sobrenatural Lupita Nyong’o na vida adulta) ganha no parque tem a estampa do vídeo musical mais famoso dos anos 1980. Mais uma prova de como o diretor não dá ponto sem nó.

A trama fala sobre as serenas férias de praia da família Wilson que transformam-se em caos quando os seus sósias aparecem e começam a aterrorizá-los. O interessante de analisar em Nós são os símbolos, entrelinhas, signos e subtextos, mas antes disso vamos puxar um pouco mais o saco de Jordan Peele, por que ele merece. Assim como em Corra! (2017), ele dirige esse aqui com maestria: roteiro redondo com ideias ousadas, uma análise da realidade que pega a gente de jeito, domínio irrepreensível de câmera, técnicas e ritmo, etc. É impressionante.

O cineasta indicou ao elenco 10 filmes de terror para assistir, para que eles se inspirassem: Voltar a Morrer (1991), O Iluminado (1980), O Babadook (2014), Corrente do Mal (2014), Medo (2003), Violência Gratuita (1997), Mártires (2008), Deixa Ela Entrar (2008), O Sexto Sentido (1999) e… Os Pássaros (1963), este último do mestre do suspense, Alfred Hitchcock. As referências ao filme são óbvias: 1) de modo claro, com as gaivotas estridentes na praia em que a família descansa, 2) de modo mais conceitual, com a chegada dos habitantes da cidade grande – lugar de perdição, corrupção e mundanidade – que acabam com idílio natural e 3) de modo literal, com o exterior invadindo o interior – tema subentendido em Os Pássaros também. A trilha sonora meio arranhada lembra outro clássico do diretor, Psicose (1960), e a questão do duplo (ou doppelgänger) é uma homenagem clara a Um Corpo que Cai (1958). É arriscado escrever isso, mas vou escrever: Jordan Peele é o Alfred Hitchcock do Século 21. Pronto. Falei.

Sobre as interpretações da trama, a mais importante fala sobre a realidade que nós vivemos atualmente, realidade essa fruto do lado obscuro que todo mundo tem e que estamos deixando sair de dentro com mais frequência ultimamente. Note que o título em inglês, Us, pode tanto signifcar Nós como U.S. (United States ou Estados Unidos). E o filme é uma grande alegoria sobre o país no momento: uma sociedade formada por seres da mesma espécie, mas com uma diferença gigante nas oportunidades e condições de vida. Tal situação gera problemas sociais como pobreza e a violência, e mais grave que isso: gera um desprendimento da empatia, que impede de enxergar o outro como semelhante, passando-o a ver como uma cópia mal-feita de si. Em outras palavras, quando nós nos unimos é pela separação, para expurgar os indesejados de nossa vida. A pergunta que fica ao final é: será que o submundo um dia vai se revoltar contra os afortunados? Por que, por enquanto, Nós é apenas um filme fantasioso, mas só depende da gente para deixar de ser.

Nota: 8.5/10

Trailer:

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Categorias:Cinema, Críticas

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