Os melhores filmes da década de 1980

Os anos 1980 foram os anos do kitsch no cinema hollywoodiano, das ombreiras, cabelos volumosos e do colorido. Foram também os anos do auge de Woody Allen e John Hughes, de uma das melhores trilogias do cinema, De Volta Para o Futuro, do surgimento de Pedro Almodóvar na Espanha, Abbas Kiarostami no Irã e dos Irmãos Coen, Rob Reiner e Spike Lee nos Estados Unidos. Por fim, foi o ano que o cinema brasileiro lançou dois dos seus mais criativos documentários: Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho e Ilha das Flores, de Jorge Furtado. Vamos lá, então, os meus três preferidos:

Medalha de Ouro: Conta Comigo (Rob Reiner, 1986)

Certos filmes são como velhos amigos que a gente visita ou conversa só uma ou duas vezes por ano, mas que sabemos que sempre estão lá e sempre estarão lá para quando precisarmos. Nenhum filme me causa mais essa sensação que Conta Comigo. A história é dirigida por Rob Reiner, um dos melhores operários-padrões de Hollywood, que deu vida a pérolas como o revolucionário pseudo-documentário Isso É Spinal Tap, Harry & Sally e Flipped – O Primeiro Amor. Ao lado de Frank Darabont (Um Sonho de Liberdade, À Espera de um Milagre) é também o cineasta que melhor soube adaptar Stephen King. Além deste, oriundo de um conto do autor, ele dirigiu Kathy Bates no excelente Louca Obsessão (1990).

O filme é responsável por cimentar a imagem de River Phoenix na memória do público, mas é Wil Wheaton que me cativa mais na pele de Gordie, um jovem que carrega consigo um trauma muito maior que a sua idade e a sua insegurança conseguem suportar: a morte do irmão mais velho, o único que o compreendia no mundo. Ao lado dos amigos Chris, Ted e Vern, ele enfrentará a jornada de sua vida atrás de um cadáver na floresta e, ao final da aventura, ninguém será mais o mesmo, nem o público. Não sei como definir o que sinto ao final de Conta Comigo, é uma tristeza, um desamparo quente, uma nostalgia, ainda vão inventar o sentimento certo. É a quase a mesma sensação que senti ao final de E Sua Mãe Também, outro filme sobre amizades juvenis que pareciam inabaláveis, mas que vão morrendo aos poucos. Ah, como assisti muitas vezes na Sessão da Tarde, esse é um dos poucos que aceito rever dublado.

Medalha de Prata: Curtindo a Vida Adoidado (John Hughes, 1986)

Uma das melhores comédias de todos os tempos, Curtindo a Vida Adoidado é um filme que só fica melhor com o passar do tempo. Ferris Bueller (Matthew Broderick, no papel da sua vida) é um adolescente que finge para seus pais que está doente para matar aula e tirar um dia de folga. O dia está lindo do lado de fora e junto com seu melhor amigo meio depressivo, Cameron (Alan Ruck), e sua linda namorada, Sloane (Mia Sara), ele navega por Chicago para viver os bons momentos da vida antes que seja tarde demais. Ferris tem dois problemas: seu diretor Ed rooney (Jeffey Jones) está cansado – num nível quase obsessivo – de ser passado para trás e decide investigar sua falsa doença e sua irmã Jeanie (Jennifer Grey, um dos rostos quando se pensa em anos 80), que se preocupa mais com a vida de Ferris do que com a própria vida.

Ferris Bueler dublando Twist and Shout dos Beatles na parada virou símbolo da sessão da tarde na cena mais lembrada desse amado clássico. É realmente difícil assistir a esta cena sem, no mínimo, dar uma mexidinha nos ombros. Feito logo após o sensacional Clube dos Cinco (1985), o filme é a consolidação de John Hughes como parâmetro para filmes adolescentes por ter os compreendido tão livre de julgamentos. Nem sei o que dizer além de que, como Feris me ensinou: a vida passa muito rápido, e se você não curtir de vez em quando, ela acaba e você nem vê.

Medalha de Bronze: Faça a coisa Certa (Spike Lee)

Em um dia que faz um calor infernal em Bed-Stuy, bairro do Brooklyn, onde a população é predominantemente negra, Buggin Out (Giancarlo Esposito, o Gus Fring de Breaking Bad) exige que Sal (Danny Aiello), o dono da pizzaria do local, troque as fotos penduradas na parede de seus ídolos ítalo-americanos por fotos de ícones negros. Quando tem seu pedido negado, o ativista passa a organizar um boicote mal-sucedido contra a pizzaria de Sal, já que o homem está ali há um punhado de tempo e, apesar da diferença racial, é bem querido pela população local.

O filme que colocou Spike Lee no mapa concentra-se quase na sua totalidade em criar um mosaico de vários personagens do bairro com suas pequenas crônicas, mini-anedotas do cotidiano. Todos vivendo numa harmonia tensa, na qual os insultos raciais, que vem de todos os lados e são rebatidos com a mesma intensidade, parecem o mal necessário para se manter a paz. Evidentemente essa panela de pressão cheia de tensão racial esquentará o dia inteiro no calor escaldante e irá explodir ao final. Lee, tantas vezes taxado de vitismista pelo seu ativismo, poderia muito bem se contentar em mostrar a visão do rapaz negro, mas ele não é de botar panos quentes. O cineasta nos mostra que ninguém escapa de ser intolerante seja negro, branco, asiático ou latino. Alguns, porém, são mais vítimas que culpados e é daí que a revolta nasce. É preciso ter muito, mas muito autocontrole para fazer a coisa certa. [adaptado dessa crítica aqui]

Menções Honrosas: Bagdad Café, Onde fica a casa do meu amigo?, O Homem que Plantava Árvores, O Exterminador do Futuro, De Volta Para o Futuro (trilogia), Clube dos Cinco, Apertem os Cintos o Piloto Sumiu, Os Intocáveis, Amadeus, Atração Fatal, Isto é Spinal Tap, Blade Runner: O Caçador de Androides, O enigma de Outro Mundo, Harry & Sally, Paris Texas, Antes Só do que Mal Acompanhado, Gente como a Gente, Gosto de Sangue, Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, O Veredicto, Hannah e suas irmãs, O Silêncio do Lago, A Rosa Púrpura do Cairo, O Beijo da Mulher-Aranha, Tampopo: Os Brutos Também Comem Spaghetti, A Era do Rádio, Zelig, Memórias, Broadway Danny Rose, A Outra, Ilha das Flores, Cabra Marcado Para Morrer, Ladrões de Sabonetes.

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Categorias:Cinema, Críticas

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