‘Mais Uma Chance’, da Netflix, e as agonias da fertilização in vitro

Desde que surgiu no Reino Unido, em 1978, a fertilização in vitro (FIV) tornou-se uma alternativa de esperança para casais que não conseguem ter filhos. De lá para cá, foram mais de oito milhões de pessoas nascidas através desse método de reprodução assistida em todo mundo. Só no Brasil, em 2017, foram mais de 36 mil procedimentos realizados. É preciso ser muito mesquinho para apelar à anti-naturalidade da FIV e não ficar feliz por um casal que “vem tentando” há muito tempo e que finalmente realiza seu sonho. Agora, entretanto, existe o outro lado, o dos que por mais que tentem não conseguem nem com a ajuda da ciência. A Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva já fala em 80% de chances de o procedimento funcionar no país. Mas e os outros 20%? Qual a consequência das ilusões perdidas? É nesse um quinto de cento que o filme Mais Uma Chance, de 2018, dirigido por Tamara Jenkins e distribuído pela Netflix, se concentra.  

Na história, Richard e Rachel – os sempre excelentes Paul Giamatti e Katryn Hahn -um casal de escritores quarentões, privilegiaram a carreira durante a juventude, mas agora sentem vontade de ter filhos. O roteiro não deixa claro há quanto tempo, mas pelas conversas da família e amigos, parece que eles estão nessa a tempo suficiente para o causo ter virado lenda. Eles vão tentando manter seu casamento à medida que mergulham no cada vez mais estranho mundo da reprodução assistida. Então, dá-lhe agulhada para cá, agulhada para lá, exame invasivo para ela e potinho de depósito de sêmen para ele. A diretora Jenkins é perspicaz ao retratar esses momentos como um constrangimento tão gradual que beira a humilhação. Quando o médico do casal sugere a reprodução por terceiros, Rachel se nega veementemente. Calha, contudo, de Sadie (Kaily Carter), a enteada do irmão de Richard reaparecer em suas vidas. Eles sempre foram os “tios” preferidos da menina e o amor foi correspondido. No auge dos seus 25 anos, Sadie é inteligente, engraçada, bonita e… perdida na vida. Ao atender o pedido dos tios postiços para doar seus óvulos, Sadie vai ganhar um tempo a mais para pensar no que quer da vida e Richard e Rachel poderão enfim ter seu filho. Eles amam tão genuimamente a sobrinha que vai ser um prazer ter um filho igual a ela, pensam.

O filme discute os dilemas éticos envolvidos no caso e o alto custo de tratamento, mas se concentra mais no estresse, na agonia e nas esperanças que vão sendo construídas e destruídas na mesma medida. É uma obra que pode se dar ao luxo de ser cansativa para proporcionar a imersão na história. A maneira que Jenkins direciona o olhar do espectador é magistral: é possível sentir a alegria deles na pele para que aos poucos fiquemos tão frustrados como Richard e Rachel, e posteriormente Sadie, no caminho para realização do seu sonho. Ao ponto de nos perguntarmos até mesmo se foi tão vantajoso assim a ciência ter evoluído tanto nesses últimos 40 anos. As consequências psicológicas e maritais para o casal são terríveis, a vida começa a girar em torno de possibilidades futuras, enquanto os demais aspectos são negligenciados. A câmera da diretora não é passiva como geralmente são as do cinema independente norte-americano. Note como ela fala muito com o fundo das cenas e como os figurantes, especialmente os da sala de recepção da clínica, também estão vivendo sua própria agonia, mesmo sem uma linha de diálogo. É, enfim, um filme agridoce, mas que termina com uma mensagem positiva de resistência, ainda que não ofereça uma plena satisfação.

Nota: 8/10

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Categorias:Cinema, Críticas

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