‘O Desaparecimento de Madeleine McCann” e o problema com os documentários da Netflix

Para quem nunca acompanhou a história de rapto de Madeleine McCann, ela é (ou era?) uma garotinha britânica de três anos que desapareceu do quarto de hotel quando estava de férias em Portugal com seus pais, Kate e Gerry, e irmãos, em 2007. A série documental da Netflix é uma recapitulação em detalhes – e põe detalhes nisso – da história terrível, sem solução até hoje. O caso teve extensa cobertura no Brasil, devido à nossa proximidade com o país colonizador, o que pode tornar, para nós, o mistério menos intrigante.

A série não chega a lugar algum, a não ser a um beco sem saída, já que o caso nunca foi resolvido e Maddie ainda está desaparecida. Tudo o que ela faz é especular sobre o porquê e quem levou a menina. Tudo isso poderia ter sido feito em um documentário de duas horas, não em uma série de tantos episódios. Como resultado, torna-se cansativo e repetitivo com os diretores enchendo linguiça o tempo todo.

Incomoda-me muito o jeito vitimista com que os pais são retratados pela mídia e agora pelo documentário. Eles certamente não mataram a filha como foram acusados em certa época das investigações, mas foram bem negligentes por deixar uma criança de três anos e dois bebês de 18 meses dormindo e desacompanhados em um quarto de hotel em um país estrangeiro, enquanto jantavam e socializavam com os amigos. Não importa como eles tentem justificar o que fizeram, foi simplesmente errado. Eles compartilham a responsabilidade pelo que aconteceu com sua filha, o que limita minha simpatia pelo casal.

Eu sou aficionado pelo caso do desaparecimento de Madeleine McCann, acompanho as notícias desde 2007 e tenho real interesse em saber o paradeiro da menina. No duro. Ainda assim, não fiquei empolgado quando a Netflix lançou essa série documental. São oito episódios de quase ou mais de uma hora em que a história é esticada ao máximo até quase rasgar. Exemplo: eu preciso mesmo saber a opinião dos turistas marroquinos que pensam que talvez, quem sabe, tenham visto a menina em um aeroporto do país em 2009? Qual a relevância disso?

O mais triste nisso tudo é que essa é uma decisão deliberada da Netflix para manter o público o maior tempo possível conectado no serviço de streaming. Mais episódios igual mais horas online: o famigerado binge watching ou maratona. Em relação aos seus documentários, comigo a tática nunca funcionou – teve o efeito contrário, por sinal – e imagino que para muita gente também não. Gostei de Making a Murderer, mas não vou enfrentar mais 13 horas da segunda temporada sobre um caso que não avançou quase nada desde a exibição da primeira temporada. Wild Wild Country é surreal, mas não vale a pena gastar tanto tempo para assisti-lo, é mais proveitoso ler a história no Wikipédia. Acho The Staircase muito interessante, até escrevi sobre, mas foi um sacrifício chegar ao final. E por aí vai… A solução para acabar o desperdício é muito simples: a Neflix deve investir mais em qualidade do que em quantidade. É ser muito inocente pedir isso?

Noves fora, o que fica de positivo nessa série documental em particular é a crítica ao espetáculo midiático criado em torno do caso, bem retratado no episódio 5. O tumulto causado pela imprensa de vários países na pequena e pacata Rohtley, onde a família mora, chegou a causar até antipatia dos seus quase 4000 habitantes pela família McCann. O que nos leva às perguntas: por que o rapto de uma criança branca, loira, pálida é tão importante e digno de notícia? Que forças temos perante a máquina da imprensa para sermos racionais diante dessa história? As respostas ainda estão sendo procuradas, em todos os sentidos.

Nota: 5,5/10

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Categorias:Críticas, Televisão

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1 resposta

  1. Bolacha ou biscoito?

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