Revendo ‘O Homem que Sabia Demais’, de Hitchcock: um pouco datado, mas bem divertido

Você deixaria um homem morrer para que a vida do seu filho fosse salva? Parece uma daquelas pegadinhas morais que nos deparamos de vez em quando, mas é o mote de O Homem que Sabia Demais (1956), dirigido por ninguém menos que Alfred Hitchcock, o mestre do suspense. Na verdade, esse é um remake do filme com mesmo título que Hitch fez em 1934. O cineasta diz que o primeiro foi um trabalho de amador e este é um trabalho de profissional. Duas sequências que destacarei abaixo corroboram a assertiva do diretor, embora alguns aspectos da obra estejam datados hoje em dia. Por exemplo, mesmo na década de 1950, é muito estranho que uma cantora mundialmente famosa como Jo Conway (Doris Day) tenha abandonado a carreira para ser a esposa de um médico, o Dr. Benjamin McKenna (James Stewart). No início do filme, os dois juntos com o filho pequeno Hank (Christopher Olsen) estão de férias em Marrocos. Um dia, passeando pelas ruas, o tal homem que sabia demais do título, cujo nome é Louis Bernard (Daniel Gélin), com quem a família já tinha feito amizade, é baleado em uma perseguição e antes de morrer sussurra essas palavras misteriosas nos ouvidos de Ben: “um homem, um estadista, será assassinado em Londres. Muito em breve. Avise-os em Londres. Ambrose Chappell”. Os conspiradores que assassinaram Bernard sequestram o pequeno Hank para que o casal não comunique a mensagem às autoridades e daí começa a luta dos pais para encontrar o filho.

As explicações para o crime são o de menos e a resolução da história é confusa, mas é sempre divertido acompanhar as tramas de Hitchcock. O ponto alto do filme é definitivamente o elenco, os astros Doris Day e James Stewart estão em sintonia perfeita com o pequeno Hank, formando uma família bem carismática. Mãe e filho cantando a música tema do filme, Que Sera Sera (Whatever Will Be, Will Be), é um dos momentos mais fofos da carreira de Hitchcock. A música que ganhou o Oscar de Melhor Canção em 1957, é entoada outra vez no desfecho da trama, mas dessa vez em um momento chave de tensão, em uma interpretação acachapante da recém-falecida Doris Day.

Quem conhece a filmografia do diretor sabe que ele gosta de inserir uns momentos de humor negro no meio do suspense, neste aqui nem sempre funciona como na entrada em cena do grupo de amigos de Jo, alheios a todo drama que a mulher está passando. Entretanto, na primeira sequência que quero destacar o humor funciona magistralmente. É quando Ben vai ao endereço de Ambrose Chapell investigar o que eles tem a ver com o assassinato de Bernard e, talvez, com o sequestro de Hank. Os Chapell calham de ser empalhadores de animais assim como o Norman Bates de Psicose (1960). Deixo abaixo as imagens dessa sequencia:

Note como apenas com o plano e contra-plano transformam o Sr. Chappel em um tigre para o Dr. McKenna, numa simbologia para perigo e ameaça.
O peixe-espada “corta” a cabeça do médico quando a cena já está se rendendo a comédia.
Já tentando degringolado totalmente, o tigre que antes o ameaçava agora engole sua mão.

A sequencia com a confusão entre os animais empalhados é genial por que começa como um grande momento de tensão e termina em um enorme pastelão em questão de segundos. Exemplifica o enorme domínio narrativo que Hitchcock tinha tanto dramaturgicamente quanto visualmente de seus filmes.

A segunda sequencia que quero relembrar é a já clássica que ocorre no  Teatro Albert Hall, em Londres. Dura 12 minutos sem uma única palavra de diálogo (um aceno de Hitch para a preciosidade do cinema mudo) e tem 124 cortes de cena. Só o rigor estético quase como uma coreografia da câmera, combinada com a ópera apoteótica e o suspense criado ao redor do momento em que os pratos serão batidos já vale por quaisquer erros que Hitchcock tenha cometido.

O simples bater de pratos de uma orquestra vira o grande momento de tensão do filme.

Nota: 7/10

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Categorias:Cinema, Críticas

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