“Temporada”, na Netflix, mostra que realismo social brasileiro não precisa ser trágico para ser eficaz

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Quando vi que Temporada, de André Novais Oliveira, havia ganho cinco troféus Candango no Festival de Brasília 2018 (incluindo Melhor Filme e Melhor Atriz para Grace Passô), perguntei-me se era tudo isso mesmo. Agora, o drama está disponível na Netflix e pude finalmente conferi-lo. Foi uma grata surpresa, é um filme que diz muito com poucas palavras, assim como sua personagem principal.

É o seguinte: Juliana (Passô) muda-se da pequena Itaúna para Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte – MG. Ela passou em um concurso público para agente de endemias e foi pega de surpresa pela convocação. Juliana, então, muda-se primeiro e combina com o marido que assim que terminar seu aviso prévio, ele se juntará a ela.

A solidão dessa temporada não é um problema para a jovem moça, que até prefere a própria companhia, mas também faz amizade rápido com o pessoal do trabalho, incluindo Russão (o impagável Russo Apr). Assim, acompanhamos seu dia-a-dia no novo emprego, passando de casa em casa, para verificar os focos de dengue nas periferias e favelas. Ela esbarra com os personagens brasileiros que a gente está acostumado, gente simples cheias de “uai” e “sô” que lhe oferecem um cafezinho e bolo de fubá, mas também gente chata que a expulsa aos gritos. É ao mesmo tempo engraçado e fácil de se identificar.

Mas não acontece nada no filme? É mais ou menos por aí, o que valem são as anedotas, as conversas fiadas com alguns silêncios constrangedores, a reclamação do baixo salário combinada com a alegria de vê-lo cair na conta, ou seja, as mini-crônicas da vida. Não que não tenha um grande conflito: Juliana tem lá suas duas ou três grandes dores na bagagem – e ganha outra bem grande no decorrer do filme – que vai compartilhando aos poucos com seu jeito mineirinho de ser.

O cinema político brasileiro tem uma grande dependência do realismo social, como se a sétima arte fosse antes uma ferramenta de denúncia das mazelas de nossa sociedade do que entretenimento. Como se para ser levado a serio precisasse-se ser brutal e chocante, quando não vulgar e malicioso. Veja quais são nossos dois maiores clássicos recentes: Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002) e Tropa de Elite (José Padilha, 2007) e tire suas conclusões.

A miséria e a violência tornaram-se símbolos de nosso jeito de contar histórias, virando um vício fácil de criticar. Os novos realizadores como Novais parecem que se atentaram a isso e estão produzindo uma safra de filmes que chocam muito, mas pela simplicidade do olhar carinhoso e poético que olham para nossa gente sofrida, sem deixar de fazer uma leitura pungente sobre nossos problemas sociais.

Assim como Temporada, são dessa safra do novíssimo cinema brasileiro jóias raras como Benzinho, Boi Neon e Arábia, obras que não são sobre nada em particular, mas discutem profundamente a dor, o conformismo, a amargura e a carência dos brasileiros. Enquanto o racismo, o desemprego, a violência, a falta de perspectiva na vida são apenas panos de fundo para criar o contexto social. Sendo assim, vai perdendo-se aos poucos o didatismo e academicismo diegético e ganhando-se uma radiografia da nossa identidade enquanto ser, não enquanto vítima.

Nota: 7.5/10

Trailer:

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Categorias:Cinema, Críticas

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