15 anos de “Meninas Malvadas”: para os adultos uma comédia, para os adolescentes um reality show

meninas malvadas

Meninas Malvadas foi sempre mais que um filme de adolescentes. Não teve medo de usar a comédia para retratar questões como amor-próprio, vergonha do corpo e bullying, o que explica por que o filme continua tão popular hoje em dia. Também não trata os adolescentes como fragéis bonecas de porcelana, sem medo de mostrar como eles são seres errantes igual a gente. Pode-se dizer que estava a frente do seu tempo por que em 2004 já lidava com esse temas que as comédias adolescentes tinham medo de abordar, e por isso ainda é incomparável 15 anos depois.

À primeira vista, pode parecer apenas mais um filme superficial sobre adolescentes tentando enfrentar o ensino médio. Afinal de contas, há bastante conversa sobre meninos, panelinhas e moda, mas se olharmos mais de perto seus temas, Meninas Malvadas aborda a jornada particular de cada personagem eficientemente.

Tomemos, por exemplo, o modo como o filme lida com a imagem corporal. No já extensivamente parodiado prólogo do filme, vemos a fauna escolar descrevendo Regina como “perfeita” e “bonita”, mas ela continua persistentemente lutando para perder três quilos. Por quê? Logo fica claro: como Cady se torna amiga das garotas, ela percebe que apesar de serem as garotas mais populares da escola, nenhuma delas gosta de seus corpos.

Enquanto estão no enorme quarto rosa de Regina, Gretchen reclama da altura do couro cabeludo, Regina reclama dos poros supostamente enormes e Karen do cantinho das unhas. O trio olha ansiosamente em direção a Cady (porque obviamente ela deve odiar alguma coisa), a novata entra em pânico e solta: “Eu tenho muito mau hálito de manhã”. A cena é engraçada e enfatiza como é ridículo o modo em que as meninas são incentivadas desde cedo a competir neste círculo vicioso de aversão da própria aparência e do corpo.

Para as três garotas malvadas, era incompreensível que Cady pudesse olhar para si mesma e não encontrar algo para reclamar. Mas ela simplesmente não podia, dada a sua criação auto afirmativa. E então vem a conclusão decisiva de Cady: “eu pensei que só havia gordas e magras, mas aparentemente há muitas coisas que podem estar erradas com o seu corpo”.

Assim, Cady começou a agir como uma garota malvada, mudando sua identidade própria, e acaba perdendo tudo o que era importante para ela: os verdadeiros amigos Damian e Janis, a cumplicidade dos pais e o menino dos seus sonhos. Tudo que é fundamental para uma pessoa normal passar sadiamente pela fase da juventude. E para quê? Só para que ela pudesse usar rosa nas quartas e substituir Regina como abelha rainha? Qual o propósito? E é exatamente por isso que o filme é valioso, porque ele derrubou pela primeira vez a mentalidade de merda que você tem que ser magra, bonita e popular para ter sucesso na vida.

Tina Fey (30 Rock, Unbreakable Kimmy Schimdt), a roteirista, interpreta a professora de matemática e lança uma das falas mais importantes do filme, quando conversa com todas as garotas sobre como elas falam sobre si e sobre as outras enquanto brigam no ginásio: “vocês todas têm que parar de chamar umas as outros de putas e prostitutas. Isso apenas deixa os caras livres para te chamarem de vadias e putas”. E se você parar para notar todas as vezes que a palavra puta é pronunciada no filme é pelas garotas.

Curiosamente, quando Regina se descreve a partir da perspectiva dos outros enquanto ela está colocando sua própria foto no livro das pauladas, ela usa os termos “puta mais safada” e “puta vadia”. Ela talvez estivesse tentando usar os termos mais ofensivos possíveis para colocar seus amigos em apuros, mas eu acho que é mais que isso. As garotas se acostumaram tanto a se ofenderem mutuamente que Regina pode realmente acreditar naquelas coisas sobre si mesma.

Como adulto é possível perceber que a verdadeira mensagem do filme é de apenas ser você mesmo e não se importar com o que os outros pensam. O final enfatiza exatamente isso. Tina Fey trouxe à luz o sexismo e o ódio internalizado antes que a maioria das pessoas soubessem o que era isso e nos ensinou que as pessoas precisam se tratar com respeito para que sejam respeitadas.

Sobre o filme, Fey declarou: “os adultos acham engraçado. Eles são os que mais riem. Os jovens assistem como um reality show. É muito perto das suas experiências reais, então eles não vão exatamente gargalhar.” Isso é tão barro!

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Categorias:Cinema, Crônicas e Artigos

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