As adoráveis comédias românticas de Doris Day e Rock Hudson e seu legado

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Na Hollywood dos anos 1950 e 1960, Audrey Hepburn era sinônimo de classe e elegância. Marilyn Monroe era a volúpia e o pecado. Doris Day, porém, não podia ser definida senão em uma dicotomia: era a feminista, mas conservadora. A boa garota, mas não boba. A atriz morreu recentemente, aos 97 anos, mas não atuava no cinema desde o final dos anos 1960. Era também uma tremenda cantora, enquanto escrevo esse texto estou ouvindo-a entoar “Que Sera Sera”, música tema de O Homem que Sabia Demais (1956), de Alfred Hitchcock, vencedora do Oscar.

Embora sua aposentadoria no cinema tenha sido precoce – dedicou-se desde então, entre outras coisas, à causa de proteção animal – ela continua sendo lembrada pela pureza e inocência virginal, embora eu discorde em vários pontos dessa lenda. Tudo isso graças em parte aos três filmes que fez com Rock Hudson, três comédias românticas que são uma delícia de se ver até hoje: Confidências à Meia Noite (1959), Volta Meu Amor (1961) e Não me Mandem Flores (1964).

Desculpem-me, Julia Roberts e Richard Gere, Cary Grant e Katharine Hepburn, mas não existe casal mais encantador, com mais química, verve e graça que Rock e Doris. Hudson morreu em 1985, aos 59 anos, em decorrência de complicações da AIDS. Em todas as reportagens que vejo ou leio sobre ele, Doris está sempre relacionada ao colega, e vice-versa. Em uma entrevista para Uol, ela falou: “Eu me divertia tanto trabalhando com o meu amigo, Rock. Nós rimos muito enquanto filmávamos as três produções que fizemos juntos, e continuamos grandes amigos depois disso. Eu sinto falta dele”. O ator Tony Randall está também nos três filmes, sempre como melhor amigo de Rock Hudson, mas quem se importa.

Os três filmes são um legado e tanto para o gênero da comédia romântica. Primeiro, deram uma invertida nas screwball comedies, ou comédias amalucadas, dos anos 1930 e 1940, em que as risadas eram mais importantes que o romance. Logo, as comédias românticas, a partir dos anos 1990, estreladas por Meg Ryan, Matthew McGounaghey, Tom Hanks, Julia Roberts, Sandra Bullock, Reese Witherspoon, Kate Hudson, entre outros, seguem o padrão lançado pelas comédias clássicas de Rock e Doris, com muitos encontros e desencontros, mas com o amor sempre vencendo no final.

A principal qualidade que noto na trilogia, além do escapismo mágico, é a consistência dos roteiros, com piadas ágeis e discretamente maliciosas, que as aproximam mais de Billy Wilder (Quanto Mais Quente Melhor) do que de Nancy Meyers (O Amor não Tira Férias), por exemplo. Ou seja, isso diz tudo. O gênero ficou massificado e repetitivo nos últimos anos, mas está se reinventando na atualidade, com filmes como Para Todos os Garotos que Já Amei e Podres de Ricos. Nenhum casal até hoje, no entanto, alcançou a sinergia de Rock e Doris, duas lendas.

Alguns podem considerar estas comédias como antiquadas e sexistas, mas acho que elas ainda são inteligentes e incrivelmente engraçadas e, vistas hoje, maravilhosamente inocentes. Abaixo deixo três pequenas resenhas sobre Confidências à Meia Noite , Volta, Meu Amor e Não me Mandem Flores para quem se empolgou em assistir:

  • Confidências à Meia Noite (Michael Gordon, 1959)

Day interpreta Jan Morrow, uma decoradora de interiores que compartilha sua linha telefônica com Brad Allen (Hudson). Um mote que seria tecnologicamente ultrapassado nos dias de hoje. Ele é um playboy mulherengo que não sai do telefone, para desespero de Jan que é obrigada ouvir as canções de amor (na verdade a mesma música), que ele canta para o desfile de mulheres em sua vida. As tentativas de Jan de conseguir uma linha telefônica privada fracassam e os dois criam um sistema a contragosto para compartilhar o telefone. Uma noite, Brad encontra Jan em uma boate e já sabendo que ela o odeia, finge ser um texano rico, porém pueril, para iniciar um romance com ela por pura diversão. O diretor Michael Gordon usa inteligentemente imagens divididas para colocar Doris e Rock juntos na tela durante as conversas por telefone, algo com um quê de inovador no final dos anos 1950. Rex Stetson, o personagem texano criado por Brad, engata um romance com Jan enquanto Brad tenta alerta-la por telefone sobre o canalha que Rex possivelmente é. Day brilha em uma performance que lhe rendeu sua primeira e única indicação ao Oscar. Hudson, anteriormente visto apenas em filmes dramáticos (como nos indispensáveis Assim Caminha a Humanidade e Tudo que o Céu Permite), mostrou um timing cômico que ninguém imaginava. Em entrevistas em seus últimos anos, sempre creditou Doris por ensinar-lhe como fazer comédia. Tony Randall interpreta Jonathan Forbes, um rico playboy depressivo por ser milionário, que é um cliente louco por Jan e amigo de Brad. Ele é uma perfeição cômica assim como Thelma Ritter, que também foi indicada ao Oscar por seu trabalho como a governanta de Jan, que gosta de uma biritinha. Uma delícia do começo ao fim.

  • Volta Meu Amor (Delbert Mann, 1961)

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O filme tem a mesma espinha dorsal do anterior. Eles não mudaram seus personagens: ela é a boa moça, ele é um cafajeste, mas agora ambos são publicitários rivais. Através de uma incrível combinação de circunstâncias, Rock cria anúncios para um produto que não existe chamado VIP. Com Doris beliscando seus calcanhares por esta e outras práticas antiéticas, ele contrata um cientista maluco interpretado por Jack Kruschen para apresentar algum produto qualquer chamado VIP e não ser punido pelo conselho de publicidade. Por umas e outras, Doris confunde Rock com o cientista e, voilá, temos de volta o enredo de Confidências à Meia-Noite, quando Rock decide se divertir às custas dela. Tudo termina muito selvagem, libidinoso e maluco, lembrando as screwballs comedies. O elenco está ótimo e faz rir muito.

  • Não Me Mandem Flores (Norman Jewison, 1964)

Rock Hudson está no seu ápice aqui como um hipocondríaco que erroneamente acha que tem apenas algumas semanas de vida e decide encontrar um novo marido para sua esposa Judy (Day), para que ela não fique sozinha assim que ele se for. O “outro homem” que ele e Tony Randall – novamente seu melhor amigo e vizinho – escolhem acaba por ser Clint Walker, a velha paixão de sua esposa dos tempos de colégio. Com a ajuda de um roteiro bastante engenhoso e algumas participações especiais bem espirituosas como Paul Lynde (um agente funerário excessivamente apaixonado pela profissão) e Edward Andrews (como o clínico geral que se arrepende de não ter se especializado em nada), Hudson aproveita ao máximo seu papel central e realmente consegue a performance cômica mais polida da trilogia. Randall não faz feio como seu vizinho que tem um fraco por gim e que promete fazer sua elegia fúnebre. Doris Day faz o que sabe fazer, mas aqui brilha menos. Como um dos escritores é Julius J. Epstein (Casablanca e O Mundo é um Hospício), não é de admirar que haja um sabor fresco e ritmo fluente no roteiro. Para passar o tempo agradavelmente.

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Categorias:Cinema, Críticas, Crônicas e Artigos

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