“Assunto de Família”, de Hirokazu Koreeda: o respeito às coisas e aos seres desimportantes

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O grande diretor japonês Hirokazu Koreeda continua sua investigação sobre o verdadeiro significado de família na obra que deveria ter ganho o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro neste ano, Assunto de Família (2018). Esse é um tema caro a ele. Veja, por exemplo, Pais e Filhos, de 2013, em que duas crianças de cinco anos são “destrocadas” de família após o hospital perceber o erro. Com uma das famílias, o cineasta nos joga uma certeza: laços sanguíneos são insignificantes, em uma tradução do famoso jargão popular “pai e mãe é quem cria” que desemboca em outro lugar comum, o “onde comem dois, comem três, quatro, cinco…”. Com a família número dois, ele complica as coisas, nos dizendo que sim, há algo de imponderável nos genes de certas pessoas que são determinantes para criação e manutenção do afeto.

Em Assunto, ele retorna ao tema, mas não à história de 2013. O filme inicia-se em um supermercado no qual Osamu (Lily Franky, parceiro habitual de Koreeda), um operário de meia-idade que trabalha meio expediente, é visto trocando sinais manuais estranhos com um menino pré-adolescente, Shota (Jyo Kairi). Logo, percebe-se que eles não estão fazendo compras comuns para a família, mas furtando o estabelecimento. Shota casualmente atira itens das prateleiras em sua sacola de compras quando ninguém está olhando. Justificando o desrespeito à lei, em outro momento do filme, Osamu diz que, se os bens estão na loja, isso significa que eles não pertencem a ninguém. Não sei se para desencargo de consciência, ele ensina à Shota que eles estão roubando os itens apenas como um meio de ajudar a família e que o furto nos mercados era a única habilidade que ele tinha para ensinar ao menino.

Osamu, como é revelado gradualmente, é o chefe de uma família formada por ele, a esposa Noboyu (Sakura Ando), a filha adolescente Aki (Mayu Matsuoka), seu irmão mais novo Shota (Kairi) e a avó Hatsue (a falecida Kirin Kiki, outra habitué nos filmes do diretor). Todos vivendo em um pequeno apartamento desordenado próximo de Tóquio, entre tralhas e bugigangas, que mal permitem espaço suficiente para comer e dormir. Família, logo se vê, é apenas um termo prático para designar o grupo que foi reunindo-se e apoiando-se mutuamente. Descobrimos que não são apenas Osamu e Shota que estão envolvidos em atividades duvidosas, mas os outros também. Noboyu trabalha como atendente em uma lavanderia e embolsa coisas que as pessoas esquecem em seus bolsos. Aki trabalha numa espécie de bordel, simulando atos sexuais para homens que estão fora de sua visão, enquanto a vovó é viciada em jogo e recebe, sem decoro nenhum, uma ajudinha do seu ex-enteado, que no fundo nada lhe deve.

A vida da família muda drasticamente quando Osamu e Shota encontram Yuri (Miyu Sasaki), uma garotinha de quatro ou cinco anos sozinha nas ruas, aparentemente abandonada. Para proteger-se Osamu renomeia-a de Rin, leva a menina para casa e descobre hematomas em seus braços que indicam que foi fisicamente abusada. Mais tarde, eles vêem uma notícia na televisão sobre uma criança que está desaparecida, cujas autoridades estão conduzindo uma investigação sobre o paradeiro. Justificando sua decisão de esconder a garota da polícia, Osamu diz aos outros que o ato não pode ser considerado seqüestro, a menos que você peça resgate. Os párias se convencem que estão apenas pensando na segurança da menina, obviamente sobrevivente de uma situação abusiva, mas logo ela vira parceira de Shota nos furtos.

Apesar de tudo, Koreeda não julga seus personagens, mas simplesmente observa a trajetória de suas vidas na melhor tradição de Yasujiro Ozu. Quando ele muda o tom do filme para algo mais sombrio no último ato, seu foco principal permanece na humanidade dos personagens. É um filme bem fluído, mas difícil de assistir, por que sabemos que seus personagens adoráveis estão andando sobre o fogo o tempo todo. O desfecho é especialmente doloroso, mas o que fica conosco, na realidade, é a empatia que Koreeda mostra na beleza de pequenos momentos. Assim como na obra-prima do diretor, Ninguém pode saber, de 2005 – em que uma mãe condena os quatro filhos a não-existência após abandoná-los, mas ainda assim eles encontram algum suporte nas pequenas delicadezas da vida – em Assunto de família, a verdadeira alegria está em uma viagem à praia, na intimidade sexual entre parceiros que tem sido há muito tempo reprimida, e (meu deus!) na expressão nos rostos das crianças pequenas, conscientes de que, talvez pela primeira vez, são amadas.

Nota: 9/10

(Em tempo: o título dessa crítica é uma homenagem a Manoel de Barros, o poeta das inisignificâncias).

Trailer:

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Categorias:Cinema, Críticas

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