“A Mula”: as possibilidades da velhice na visão de Clint Eastwood

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Só aos 90 anos que Earl Stone decide viver fora da lei, após perder tudo que ama. Não que ele ame muito e quando ama, ama mal. Escrito por Nick Schenk e dirigido e estrelado por Clint Eastwood, A Mula (2018) foi inspirado em um artigo do New York Times, “A mula de drogas de 90 anos do cartel de Sinaloa”, de Sam Dolnick. O filme usa eventos verdadeiros para estruturar uma história muito mais romanceada. Contrariando a tendência atual de dramas emocionalmente monocromáticos, a obra é um rico estudo sobre triunfo e tragédia, humor e tristeza, culpa e perdão.

Na trama, Earl Stone é um horticultor bem-sucedido em Peoria, Illinois, que negligencia sua família. Ele mal fala com sua esposa Mary (Dianne Wiest) e a filha Iris (Alison Eastwood), mas ainda é bem próximo de sua neta, Ginny (Taissa Farmiga). Mary e ele são divorciados, e depois de não conseguir se integrar à era digital, o negócio de Stone vai a falência. No desespero, ele aceita uma oferta misteriosa para entregar um pacote no México. Pensam os traficantes: ora, quem iria suspeitar de um velhinho branco que quer atravessar a fronteira? De “bico” a viagem única vira uma nova fonte de renda que ajuda a pagar as aulas de cosmetologia de sua neta. As coisas ficam complicadas quando o agente da DEA, Colin Bates (Bradley Cooper), e seu parceiro Trevino (Michael Peña) começam a investigar uma mula chamada de “Tata”, ou avô. Entretanto, nos Estados Unidos da América, o despretensioso homem branco idoso com um registro limpo escapa facilmente do radar da lei durante um bom tempo.

A Mula é vagamente baseado na vida de Leo Sharp, veterano da Segunda Guerra Mundial, cuja sua decana vida de crime fez dele um milionário. Quando foi finalmente pego em 2011, aos 87 anos, entregou o esquema de drogas do qual participava, e ficou um ano na prisão antes de ser solto devido à sua saúde em declínio. Ele morreu em dezembro de 2016.

A maioria dos eventos que retratam a vida familiar de Earl Stone não se baseiam em sua contraparte histórica. Sharp tinha uma esposa e três filhos e ainda era casado quando morreu. Os cineastas mudaram os anos em que os eventos ocorreram e o estado de origem da Sharp de Michigan para Illinois. Essas mudanças, particularmente quando se trata da vida pessoal do personagem principal, melhoraram substancialmente a história e acrescentaram a profundidade e o drama que o cinema precisa.

É difícil não comparar A Mula com o filme de Clint Eastwood de 2008, Gran Torino. Nos dois, vemos protagonistas idosos na tela. O cineasta parece ter criado um novo nicho para si mesmo no final de sua carreira. Como o personagem de Walt Kowalski em Gran Torino, Earl Stone é um idoso branco emocionalmente travado e politicamente incorreto, que tem dificuldades em se adaptar ao mundo moderno. Ambos são veteranos da Guerra da Coréia, e ambos experimentam a perda de um cônjuge.

A diferença está na atitude que os dois velhos encaram o fim da vida. Enquanto Kowalski se sacrifica para remover uma ameaça à sua nova comunidade cada vez mais mista racialmente, Earl abraça uma vida de crime para melhorar sua situação financeira, pouco se importando com qualquer tipo de decência. Os espectadores cínicos e aqueles que conhecem apenas a fama de machão de Eastwood, podem considerar algumas partes de ambos filmes excessivamente sentimentais, mas são dois belos trabalhos de um diretor incansável que, cada vez mais próximo do seu centenário, sempre se reinventa e se questiona.

Nota: 8/10

Trailer:

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Categorias:Cinema, Críticas

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