Os melhores filmes da década e onde assisti-los: ano de 2018

(Versões das críticas já foram anteriormente aqui publicadas).

A década de 2010 está chegando ao fim, ou seja, chega a hora de a gente revisitar nossa história e avaliar o que houve de bom ou de ruim. Portanto, vou criar um pódio aqui no site com os três melhores filmes de cada ano, para em dezembro fazer um Top 100 da década. Dito isso, vamos ao que interessa, os três melhores filme de 2017:

Medalha de Ouro: Em Chamas (Chang Dong-Lee)

em chamas

Esta obra-prima de Lee é enigmática e deslumbrante. A trama é sobre o reencontro entre o entregador e aspirante a escritor Jong-soo (Yoo Ah In) e a maluquete Hae-mi (Jong-seo Jeon), uma antiga amiga que vivia no mesmo bairro que ele. A jovem está com uma viagem marcada para África e pede para Jong-soo cuidar de seu gato de estimação – que pode existir ou não – enquanto está longe. Hae-mi retorna na companhia de Ben (Steve Yeun, o Glenn de The Walking Dead), um jovem misterioso que conheceu na viagem. Ben tem um hobby que confidencia a Jong-soo: ele incendeia estufas. E mais não digo.

A trama se desenvolve como um Grande Gatsby moderno e mais juvenil. Há inclusive uma citação ao personagem imortal criado por F. Scott Fitzgerald no próprio filme. Assim como Gatsby, Ben é “um cara rico que nós realmente não sabemos o que faz”. As duas histórias lidam com um triângulo amoroso que inclui um homem rico, carismático e misterioso, o narrador menos carismático que desenvolve uma obsessão por ele e a mulher que é o elo entre os dois.

É admirável como Lee costura a narrativa camada sob camada com controle total do seu filme, transitando da monotonia à completa tensão, obrigando-nos a somar dois mais dois para resultar quatro. Perigosamente, porém, o resultado final pode ser cinco. Preciso falar ainda da belíssima cena da dança ao pôr-do-sol de Hae-mi, seminua, na fronteira da Coréia do Sul com a Coréia do Norte, ao som de um jazz aveludado, que remete imediatamente a cena final do filme anterior de Lee, Poesia (2010). É de arrepiar. É poesia em formato de imagens. É para isso que existe o cinema, amigos.

Onde assistir: torrents em sites de torrents e legendas no legendas.tv

Medalha de Prata: Sem Rastros (Debra Granik)

Em um artigo para Variety, Owen Gleiberman defendeu que a maioria dos grandes filmes são, em algum nível, sobre empatia. Isso vem à mente ao assistir este filme de Debra Granik – mais conhecida por descobrir Jennifer Lawrence em Inverno da Alma (2010) – uma vez que para o longa funcionar é preciso antes de ter muita empatia, colocar-se no lugar de Will (Ben Foster), o personagem principal. Na história, somos apresentados ao homem e sua filha adolescente, Tom (Thomasin McKenzie), no momento em que eles preparam a lenha e fazem fogo, sem fósforo ou isqueiro, para a refeição. Logo, percebe-se que os dois vivem indetectados e ilegalmente em uma floresta de Portland, no extremo noroeste dos EUA.

A história dos párias é construída lentamente por Granik, que imerge o espectador aos poucos na trama. Com escassos diálogos, descobrimos que a rotina da família já dura há alguns anos, eles têm o mínimo de contato com a sociedade e dependem muito pouco dos seus objetos. Em uma cumplicidade bucólica, o pai até mesmo ensina a filha periodicamente a se camuflar na mata para não ser encontrada por ninguém. A informação mais importante que recebemos do roteiro é que Will é um ex-soldado de guerra, traumatizado pelas suas experiências em campo.

O rompimento desse pequeno universo ocorre quando em um momento de distração, Tom se deixa mostrar para um homem que está passando pela reserva. Eles são retirados do acampamento e colocados sob a responsabilidade do serviço social. Pai e filha ganham casa, comida e emprego, tudo o que Will, por algum motivo, não quer. Após tentar se adaptar, o homem decide fugir de volta ao mundo selvagem, mas a jovem menina deseja ficar com os confortos que o convívio social lhe oferece.

Nesse momento que a empatia por Will deve entrar em cena. É injustificável (aos olhos de muitos, até mesmo crueldade) que o pai leve a filha em direção ao desconhecido, longe de qualquer contato com a sociedade. Entretanto, o cinema está aqui para isso: reduzir esse julgamento – entre as pessoas na tela, quem quer que seja, e as pessoas na platéia – e depurá-lo para finalmente poder colocar-se nos sapatos dos outros. Existe algo de imponderável no comportamento de Will, que faz com que ele pertença ao isolamento, ao nomadismo. Assim como Tom irá perceber, há que ser respeitado, nem que para isso o elo que os une precise ser ressignificado. O filme passa uma sensação de encantamento como se fosse um Capitão Fantástico mais extremo e realista e, por isso mesmo, mais ferino.

Onde assistir: torrents em sites de torrent e legendas no legendas.tv

Medalha de Ouro: Asako I & II (Ryûsuke Hamaguchi)

Num delicioso anagrama, Asako (Karata Erika) é natural de Osaka, Japão. Essa é uma das poucas informações que o diretor oferece sobre sua protagonista, não por um descuido do roteiro, mas por que, com seu olhar vazio e suas poucas expressões, Asako parece mesmo uma folha em branco, que só começa a ser escrita quando Baku (Mahashiro Higashide) entra em sua vida. Ela se apaixona perdidamente pelo rapaz, por seu jeito desleixado, rebelde e misterioso. Baku é tão cool. “Ele é um perigo”, lhe avisa a melhor amiga Maya (Rio Yamashito), mas do alto dos seus 21 anos, Asako pouco se importa. Ela quer o sabor da aventura. Contudo, Baku sai de casa um dia e não retorna, para desespero de Asako que não sabia que o principal ingrediente de um outsider é justamente sua imprevisibilidade.

Baseado no livro de Tomoko Shibasaki, o filme segue, após o prólogo, a jovem na sua segunda versão, após o trauma causado pelo primeiro amor. Ela mudou-se para Tóquio e trabalha em uma cafeteria. A sua nova vidinha muda quando a mão invisível do acaso entra em ação: em frente ao serviço de Asako, trabalha Ryohei (Mahashiro Higashide, em duplo papel), promissor homem de negócios, que calha de ser a cópia esculpida-em-carrara de Baku. Asako se apavora, tenta fugir, mas Ryohei também se encantou por ela, e ela cede a simplicidade do rapaz. Ao contrário de Baku, porém, Ryohei é responsável, terno e organizado. Digamos que seja uma versão limpinha do seu duplo. A segurança de um futuro confortável está garantida para Asako, mas será que ela está mesmo apaixonada por Ryohei ou pela imagem idealizada que ela tem de Baku?

A jovem é espectadora dos dois rapazes. O reflexo deles incide sobre Asako e lhe mostra o que ela é, o que ela poderia ser e o que pode se tornar. Engane-se, portanto, quem pensa que o filme é um romance (seria, no caso, um pós-romance). Frustra-se quem espera que se enverede pelo jogo de espelhos de Baku/Ryohei. O filme é, na verdade, um estudo de personagem precioso em que a protagonista é simplesmente mais um humano. E nós, humanos, somos como um rio sujo, que se visto de perto ainda possui certa beleza. Asako está tão perdida, egoísta e desesperada como eu e você, mas vai enfrentando a vida e tomando decisões ora sensatas, ora insensatas, que a compelem a ir para frente, mas a forçam a voltar para trás, como o Sísifo empurrando eternamente a rocha montanha acima. Ao final, o diretor Shibasaki – que faz um trabalho excelente – nos diz que o processo da existência é mesmo uma desordem de espirais, mas que é bom pelo menos tentar fechar os ciclos para que você possa se aproximar o máximo que der da sua melhor versão.

Onde assistir: torrents em sites de torrent e legendas no legendas.tv

Menções Honrosas de 2018: Vox Lux; Selvagem; Green Book; Conquistar, Amar e Viver Intensamente; Roma; Sierra Burgess é uma Loser; O Primeiro Homem; Boy Erased; A Favorita; Querido Menino; Ferrugem; Infiltrado na Klan; Oitava Série; A Noite Devorou o Mundo; Amanda;  Um Lugar Silencioso;  Assunto de Família; A Mula; Won’t You Be My Neighbor?; Buscando; Três Estranhos Idênticos; Culpa; Vice; Tully;Todos já Sabem; Homem Aranha no Aranhaverso; Poderia me Perdoar?; Com Amor,  Simon; Podres de Ricos; Bird Box; A Noite do Jogo.

Leia Também:

Anúncios


Categorias:Cinema, Críticas, Listas

Tags:, , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: