Arya Stark: a jornada da heroína e o monomito (GoT – T8E3)

SPOILERS!!!

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Antes de qualquer coisa, digo que essa será uma avaliação do que a série é (ou se tornou), não o que ela já foi e nem o que ela poderia ser.

Dito isso, em Game of Thrones, não há o que se reclamar, cinematograficamente falando, dos episódios de batalhas – sim, por que a Batalha de Blackwater (2ª Temporada), a Batalha dos Bastardos (6ª Temporada) e agora, a Batalha da Longa Noite, ou Batalha de Winterfell, é coisa de cinema, não televisão. Mais do que os livros de história – que nos fornecem datas, nomes e contexto – em GoT é possível sentir a guerra como arte e entender seu cerne como estratégia militar. Como em um jogo em que é preciso planejar, avançar e recuar, ser forte e ser covarde quando preciso for e ir avançando e recuando, e não desistir para que, no mínimo, se vire um herói e se construa os mitos para as próximas gerações. Foi assim com Tyrion em Blackwater, Jon Snow nos campos de Winterfell e agora Arya Stark no quintal da própria casa. Mas não se vence uma guerra lutando sozinho, portanto, antes de falar de Arya, vamos saudar os heróis:

– Lyanna Mormont, nosso Davi, uma personagem que nos surpreendeu com sua audácia e frases de efeito quando apareceu temporadas atrás, parecia ser apenas isso: uma menina petulante, mas mostrou que era uma verdadeira heroína, se sacrificando, não sem antes dar uma bela de uma ajuda ao derrotar o gigante Golias. Que cena essa, arrepiante e comovente.

– Daenerys, devo dizer, subiu no meu conceito. Quando se viu sem seu dragão, empunhou a espada, desceu do pedestal e foi à luta. Não pelo trono ou por puro rancor, mas pela redenção de ajudar seu fiel protetor, Jorah Mormont.

– Bedric Dondarrion: já havia esquecido qual era a função dele na trama. Mas admiravelmente morreu defendendo Arya e, mesmo sem saber, possibilitando o golpe fatal dela no Rei da Noite. “O Senhor o trouxe de volta com um propósito, e agora esse propósito foi cumprido”, disse Melisandre. Ok, então.

– Melisandre, por falar nela, ajudou em momentos-chaves da batalha produzindo o tão bem-vindo fogo. Tendo tirado seu colar, cumprido o propósito de lutar contra o Rei da Noite, morreu na neve, após viver sabe-se lá quantos séculos. Até perdoamos os seus erros, como matar a Shireen (não, não perdoamos não).

– Theon, ah Theon, pobre Theon. Esse perdoamos por que pagou todas as suas dívidas em vida. Morreu de uma das formas mais dignas: sabendo que ia morrer, mas lutando até o fim. Bravo!

– Bran, o que dizer de Bran? Não entendi bem se a morte do Rei da Noite foi um plano arquitetado previamente por ele e Arya. Às vezes, ele é desnecessariamente misterioso. Mas acho que tudo vai ser esclarecido nos próximos episódios, inclusive a cena dos corvos conduzidos pela sua visão.

Por fim, Arya Stark. Uma dos motivos por que devemos aliviar (um pouco) a barra de George R. R. Martin e os criadores David Benioff e D. B. Weiss é por que podem até passar a impressão que estão totalmente perdidos através de seus ganchos e soluções facéis, mas mostraram que tem um domínio total da narrativa. Basta ver que, como num jogo de xadrez, todos os personagens que chegaram e/ou se sacrificaram na batalha de Winterfell tem seu propósito bem definido como num grande inconsciente coletivo. A prova disso é Arya, que parecia ser fundamental para a história, mas coadjuvante dos mitos Jon Snow e Daenerys Targaryen, mas até o momento é a grande heroína da série. Seriam as crônicas de Gelo e Fogo, na verdade, a crônica da vida e obra de Arya Stark, a deusa de muitas faces? No clássico livro de Joseph Campbell, O Herói de Mil Faces (notem a “coincidência” do título), o autor narra que todas as histórias de heróis são as mesmas histórias (monomito). Ora, se olharmos em retrospecto, a jornada de Arya atende todos os requisitos descritos no livro:

  • O mundo da inocência: no início da jornada, quando ela era apenas uma garotinha fora dos padrões, ignorante de sua identidade e de seus poderes;
  • O chamado: a decapitação de Ned Stark, o pai, a tira do seu mundo confortável;
  • A jornada e as provações: que a levaram ao Homem sem Rosto, que lhe mostrou os seus poderes;
  • A conquista do troféu: consciente de sua identidade e das suas virtudes, Arya mata o Rei da Noite e se torna um mito.

A última etapa seria “a volta para casa” em que Arya deve se comportar como o seu verdadeiro “eu”. Como os criadores da série lidarão com o mito que criaram? Campbell dá a dica sobre o destino da menina Stark: “O final feliz é desprezado, com justa razão, como uma falsa representação; pois o mundo — tal como o conhecemos e o temos encarado — produz apenas um final: morte, desintegração, desmembramento e crucifixão do nosso coração com a passagem das formas que amamos.” Aguardemos.

Nota: 10/10

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