“Asako I & II”: um filme sujo, porém lindo

asako 2

Num delicioso anagrama, Asako (Karata Erika) é natural de Osaka, Japão. Essa é uma das poucas informações que o diretor Ryusuke Hamaguchi oferece sobre sua protagonista, não por um descuido do roteiro, mas por que, com seu olhar vazio e suas poucas expressões, Asako parece mesmo uma folha em branco, que só começa a ser escrita quando Baku (Mahashiro Higashide) entra em sua vida. Ela se apaixona perdidamente pelo rapaz, por seu jeito desleixado, rebelde e misterioso. Baku é tão cool. “Ele é um perigo”, lhe avisa a melhor amiga Maya (Rio Yamashito), mas do alto dos seus 21 anos, Asako pouco se importa. Ela quer o sabor da aventura. Contudo, Baku sai de casa um dia e não retorna, para desespero de Asako que não sabia que o principal ingrediente de um outsider é justamente sua imprevisibilidade.

Baseado no livro de Tomoko Shibasaki, Asako I & II (2018), segue, após o prólogo, a jovem na sua segunda versão, após o trauma causado pelo primeiro amor. Ela mudou-se para Tóquio e trabalha em uma cafeteria. A sua nova vidinha muda quando a mão invisível do acaso entra em ação: em frente ao serviço de Asako, trabalha Ryohei (Mahashiro Higashide, em duplo papel), promissor homem de negócios, que calha de ser a cópia esculpida-em-carrara de Baku. Asako se apavora, tenta fugir, mas Ryohei também se encantou por ela, e ela cede a simplicidade do rapaz. Ao contrário de Baku, porém, Ryohei é responsável, terno e organizado. Digamos que seja uma versão limpinha do seu duplo. A segurança de um futuro confortável está garantida para Asako, mas será que ela está mesmo apaixonada por Ryohei ou pela imagem idealizada que ela tem de Baku?

A jovem é espectadora dos dois rapazes. O reflexo deles incide sobre Asako e lhe mostra o que ela é, o que ela poderia ser e o que pode se tornar. Engane-se, portanto, quem pensa que o filme é um romance (seria, no caso, um pós-romance). Frustra-se quem espera que se enverede pelo jogo de espelhos de Baku/Ryohei. O filme é, na verdade, um estudo de personagem precioso em que a protagonista é simplesmente mais um humano. E nós, humanos, somos como um rio sujo, que se visto de perto ainda possui certa beleza. Asako está tão perdida, egoísta e desesperada como eu e você, mas vai enfrentando a vida e tomando decisões ora sensatas, ora insensatas, que a compelem a ir para frente, mas a forçam a voltar para trás, como o Sísifo empurrando eternamente a rocha montanha acima. Ao final, o diretor Shibasaki – que faz um trabalho excelente – nos diz que o processo da existência é mesmo uma desordem de espirais, mas que é bom pelo menos tentar fechar os ciclos para que você possa se aproximar o máximo que der da sua melhor versão.

Nota: 10/10

Trailer:

 

Anúncios


Categorias:Cinema, Críticas

Tags:,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: