“Nosso Planeta”, da Netflix: a destrutiva aventura humana na Terra

nosso planeta netflix

O fim da existência humana na Terra é um assunto que as pessoas não gostam de tocar, seja por medo, seja por que ainda não se libertaram ou seja por pura falta de interesse, de modo que ninguém o compreende direito. Vejam bem, há sempre uma confusão sobre o destino final da humanidade, como se a existência do planeta estivesse intrinsecamente dependente da existência humana. O nosso egocentrismo nos faz crer que somos o alicerce de nossa Casa (a Terra) e não meramente seu habitante, como se a toda-poderosa Terra estivesse girando copernicamente ao nosso redor, meros vermes. A verdade é que nossa espécie partirá em breve, levando consigo uma quantidade incalculável de seres vivos inocentes – como mostra a série documental Nosso Planeta, da Netflix – e o planeta continuará aqui, se reerguendo e dilacerado após abrigar milhões de indivíduos inconscientes que abusaram dele durante milênios.

É certo que um dia o planeta – sendo um ser vivo – também morrerá, consumido pelo fogo (com a expansão do Sol, daqui a 7,5 milhões de anos, apontam os cientistas), mas as chamas não terão tempo de nos alcançar, por que já teremos nos suicidado muito antes pela ganância que gera o aquecimento global, enquanto fingimos que não sabemos o resultado final. Se destruíssemos apenas a nós mesmos, mas não, nosso desespero e estupidez leva os leões-marinhos a se jogarem de penhascos na Sibéria (episódio 2), elefantes cavarem o que resta dos rios secos à procura de água nas savanas (episódio 5), e ursos polares ficarem, vejam só, magrelos no Alasca (episódio 1).

A verdade é que ainda lutamos muito pelas coisas básicas da vida. Por trabalho. Por saúde. Pela educação. Por dinheiro. A grana que paga nossas férias não é suficiente para que possamos fazer a dificílima, perigosíssima e gratuita “viagem de si a si mesmo”, que nos falava Carlos Drummond de Andrade.Um dia, porém,conseguiremos entender e, então, estaremos ferrados, por que teremos plena consciência do absurdo da nossa existência, da ausência divina e ficaremos fatigados, a naúsea nos golpeará tão forte que vamos sucumbir um a um, coletivamente, numa irmandade sombria e tardia, enojados com a nossa própria insignificância, vítimas da nossa indiferença. Implorando pelo fogo que nunca vem, e que nunca virá, por que ainda não é a hora, por que nos antecedemos e por que não somos dignos dele.

Ao final do último episódio de Nosso Planeta, é impossível não lembrar das palavras de Rachel de Queiroz: “Há que ter coragem para continuar vivendo, tem que se pensar no dia de amanhã, embora uma coisa obscura nos diga teimosamente lá dentro que o dia de amanhã, se a gente o deixasse em paz, se cuidaria sozinho, tal como o de ontem se cuidou.”. Para a Terra, aponta o documentário, o dia de amanhã seria brilhante sem seu filho mais ingrato.

Nota: 9//10

Trailer

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Categorias:Críticas, Televisão

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