Quem diria que Steven Spielberg, um dos responsáveis por revolucionar o cinema, ficaria ultrapassado

spielberg netflix

Foto: Consequence of Sound.

Uma das minhas frases favoritas de O Formidável, cinebiografia de Jean-Luc Godard, é: “todos os artistas devem morrer antes de virarem velhos idiotas”. A máxima serve para Godard que virou um chato de galochas com o passar do tempo, e agora serve também para alguém que estava acima de qualquer suspeita: Steven Spielberg.

O lance é o seguinte: o cineasta está comprando uma briga contra a Netflix e não quer vê-la mais concorrendo ao Oscar, mas sim ao Emmy e ao Globo de Ouro da TV, porque seus filmes seriam um produto televisivo. O site gringo Collider noticiou que o diretor irá propor, durante uma reunião em abril entre membros da banca de Governadores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, uma regra que impeça que filmes de streaming como os da Netflix e Amazon concorram ao prêmio máximo do cinema. O diretor inclusive teria feito campanha para Green Brook, da tradicional Universal, contra Roma,do serviço de streaming, durante a última temporada. Como sabemos pelo resultado final, por enquanto a velha guarda está se dando melhor.

A Netflix respondeu com classe e elegância no Twitter: “Adoramos cinema. Aqui estão algumas coisas que também amamos: acesso para pessoas que não podem sempre pagar, ou vivem em cidades sem cinema; deixar todos, em todos os lugares, desfrutar de lançamentos ao mesmo tempo e dar aos cineastas mais maneiras de compartilhar arte. Essas coisas não são mutuamente exclusivas.” E ela não está errada.

Fico pensando o que o Steven Spielberg dos anos 1970 diria para o Spielberg de agora. Ele, junto com Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, George Lucas, Peter Bogdanovich e outros jovens cineastas espanaram o mofo do cinema clássico de Hollywood, criando obras-primas populares e inteligentes como nunca mais foram vistas em outra época desde então. Os filmes do cineasta na década são uns dos mais criativos e originais de todos os tempos: Encurralado, A Louca Escapada, Tubarão e Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Além de E.T – O Extraterrestre e da série Indiana Jones na década seguinte. Todos eles ajudaram a criar e mudar o sistema: agora era preciso ser blockbuster, arrasar quarteirões inteiros para ser considerado sucesso. O resultado? O cinema menor, “de arte”, de “autor”, foi colocado de escanteio nos complexos de cinema para favorecer os filmes-eventos e Spielberg se tornou um magnata da indústria e acadêmico elitista. Nada contra, ele fez por merecer criando trabalhos de qualidade e popularidade e errando muito pouco, mas o que ele precisa entender é que tradições são meras ilusões de permanência e o novo sempre vem. Seria lindo que todos os filmes continuassem sendo exibidos na maior tela possível para o maior público possível, mas o entretenimento mudou, as tecnologias mudaram e as pessoas mudaram.

Veja o bem que a Netflix faz em distribuir um filme lindo sobre mulheres, em preto-e-branco e falado em espanhol e mixteca para o mundo todo ao mesmo tempo, ao invés de ficar reduzido para o público cinéfilo e festivais independentes de cinema. E, me desculpe, narrativamente eu até acho Roma supervalorizado, mas nunca direi que aquela beleza toda não é cinema mais puro e genuíno possível. A meu ver, Spielberg e os grandes estúdios estão agarrados ao velho modo de promover e compartilhar cinema, mas serão atropelados pela modernidade se não se antenarem. A máquina do tempo de De Volta para o Futuro (outra jóia co-produzida por Spielberg) deveria ser usada pelo jovem Spielberg para que ele viesse do passado e desse o recado para o velho Spielberg: é o Oscar que tem que se adaptar aos novos tempos, não os novos tempos que tem que se adaptar ao Oscar.

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Categorias:Cinema, Crônicas e Artigos

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