O orgulho e o preconceito em “Orgulho e Preconceito”

orgulho e preconceito

Em um dos últimos bons episódios de The Big Bang Theory, “A minimização dos caçadores” (temporada 7, episódio 4), Sheldon sendo bem Sheldon tenta arruinar tudo o que Amy Farrah Fowler gosta, após a namorada apontar todas as falhas em Os Caçadores da Arca Perdida, amado filme do físico. Entre as coisas que Amy mais preza na vida está o clássico livro de Jane Austen, Orgulho e Preconceito, de 1813. Após lê-lo no intuito de destruí-lo, ele se frustra e chega à seguinte conclusão: “acontece que o amado ‘Orgulho e Preconceito’ de Amy é uma obra-prima impecável. Ele é muito orgulhoso, ela muito preconceituosa. As coisas se encaixam”. Será mesmo? Para minha surpresa, muita gente achava justamente o contrário: Elizabeth Bennet é muito orgulhosa e Mr. Darcy é muito preconceituoso. Será que o genial físico errou pela primeira vez?

Antes de qualquer coisa, vamos falar aqui da sublime adaptação cinematográfica dirigida por Joe Wright em sua estreia nas telas grandes em 2005 e estrelada pelos maravilhosos Keira Knightley e Matthew McFayden. A história, em linhas gerais, versa sobre Elizabeth Bennet, inteligente e espirituosa jovem que conhece o rico e reservado Sr. Darcy. Os dois relutantemente se apaixonam, mas não conseguem se encontrar sem brigarem um com o outro. Ela precisa lidar com sua predisposição de julgar os outros pelas primeiras impressões (First Impressions, aliás, era o nome com que Austen queria batizar o livro) e ele com sua relutância em se envolver com uma mulher de classe inferior. Logo, pode-se concluir que ela é preconceituosa e ele orgulhoso, certo? Bem, não necessariamente. Para entender melhor, é preciso ir a fundo nesses dois conceitos.

O Orgulho

Por mais que não queiramos aceitar, o fato é que o orgulho faz parte da nossa formação evolutiva como seres sociais. De acordo com esse estudo publicado em reportagem da BBC, “quando pretendemos sentir orgulho de algo é porque esse sentimento evoluiu para nos proporcionar – e às pessoas à nossa volta – benefícios sociais. E são geralmente representadas por uma atitude característica e inconfundível: postura ereta, braços para o alto e cabeça erguida”. A parte em negrito basicamente descreveu o Sr. Darcy. É a velha lei do mais forte: se você for investir tempo em cultivar uma habilidade específica, vai estar melhor cultivando habilidades que outras pessoas valorizem. Quem não fizer isso, vai estar sempre abaixo por não conseguir conquistar a admiração suficiente das pessoas.

O problema que vejo em Sr. Darcy não é somente de orgulho, mas também da filha deste: a vaidade, que é uma supervalorização do seu status aristocrático, que gera desprezo até mesmo na mãe casamenteira de Elizabeth, uma senhora cujo objetivo de vida é unir suas cinco filhas com bons homens (leia-se: homens ricos). Por isso, para nos mantermos apenas nos adjetivos do título, podemos dizer que o cavalheiro em questão possui o que os especialistas chamam de orgulho arrogante.

Mas e Elizabeth Bennet? Podemos dizer que ela possui o orgulho autêntico, visto através de sua autoestima, capacidade retórica e muitas amizades, apesar do seu “nível social”. E é justamente isso que irrita e depois fascina o Sr. Darcy: a jovem é tudo que ele gostaria ou deveria ser ou ter. Em uma bela cena, já hipnotizado por ela, ele confidencia: “não tenho facilidade de conversar estranhos”, ou seja, o seu sexo e posição social não lhe garantiram habilidades sociais que sobram em Elizabeth – só lhe restou a arrogância e a vaidade que, no fundo, revelam um grande desajuste social.

O preconceito

Na era de racismo, homofobia e xenofobia, é quase engraçado pensar que o maior preconceito apontado por Jane Austen é o fato de Elizabeth menosprezar Mr. Darcy por sua riqueza. Não, não era uma época melhor para se viver. O preconceito tem sua própria escala evolutiva. Se hoje o que nos causa revolta é o desprezo pela cor, pelo sexo ou pela origem é por que, à época do livro, esses tabus eram tão institucionalizados que nem mesmo eram vistos como errados. Foi preciso que a medicina, a revolução industrial e a razão entrassem em campo para que deixássemos de ser tão mesquinhos e anticivilizados.

Mas, voltando ao filme, o preconceito de que trata é o preconceito social, hoje em dia amenizado ou, pelo menos, indecoroso de ser declarado em voz alta. Na realidade da Inglaterra no final do século 18, as posições a serem ocupadas pelos indivíduos estavam determinadas, logo, as relações sociais também. Mr. Darcy era nobre e Elizabeth, apesar de não ser pobre, era apenas filha de um rico fazendeiro. Se existe uma coisa, entretanto, que permanece na linha temporal de todos os preconceitos são duas características: 1) o estereótipo, que ambos possuíam em relação ao outro e 2) a negação da individualidade que, pelo menos a princípio, impediu-os de ver qualidades únicas que ambos possuíam, por restringi-los às aparências sociais. Ora, Elizabeth só podia ser alpinista social na visão dele e Mr. Darcy só podia ser um rico esnobe na visão dela. Assim, pode-se concluir que os dois eram preconceituosos.

Por fim…

Esse texto seria desnecessário se considerássemos que muitos historiadores têm apontado que somente fatores comercias foram influência na escolha do título. Após o sucesso de Razão e Sensibilidade (que também gerou um ótimo filme com Emma Thompson e Kate Winslet) nada mais natural do que oferecer outro romance da autora usando novamente a fórmula do título. Entretanto, achei interessante analisar a construção do caráter que Austen escreveu e o diretor Wright traduziu tão bem. As duas características, ao contrário do que Sheldon Cooper concluiu no seriado, pertencem aos dois protagonistas. A saga de Elizabeth e Mr. Darcy nos diz que situação social e riqueza não são tudo na vida, e só quando se abandona o orgulho arrogante e o preconceito é que se pode enxergar isso.

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Categorias:Cinema, Crônicas e Artigos

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