Politicamente correto e tribunal da internet estão destruindo a carreira brilhante de Woody Allen

chuva

Todos os anos de 1977 a 2017 (com exceção de 1981), o cineasta Woody Allen lançou religiosamente pelo menos um filme. Em 1987, 1989 e 1994 lançou dois. Muitos deles eram obras-primas. Match Point – Ponto Final, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Zelig e Memórias estão entre os que considero não apenas ótimos filmes, mas coisa de gênio. Nem todos os filmes de Allen foram excelentes, é claro, mas a quantidade de filmes no mínimo bons é inigualável. Nenhuma figura de Hollywood detêm uma carreira mais consistente ou uma quantidade de filmes mais premiada do que Woody Allen.  Mas graças à toda poderosa Amazon Studios, a carreira de Allen pode ter acabado para sempre com Roda Gigante, em 2017.

Allen assinou um contrato de vários filmes com o estúdio, e quando o movimento #MeToo surgiu, a empresa aderiu ao politicamente correto e decidiu não mais lançar qualquer filme da Allen, nem mesmo o já finalizado A Rainy Day in New York (Um Dia Chuvoso em Nova York), que agora está acumulando poeira em alguma estante do estúdio. Repito: filme finalizado. Nem mesmo em streaming. Agora, Allen está processando a empresa em US$68 milhões por quebra de contrato com base em uma “alegação sem provas de 25 anos atrás”, como Allen vem afirmando há quase três décadas, referindo-se às inúmeras denúncias feitas por Dylan Farrow, sua filha adotiva que alega ter sido molestada pelo cineasta quando criança. A Amazon afirma que talvez não encontre distribuição para lançar o filme nos cinemas, mas, na realidade, eles poderiam apenas lançá-lo em seu serviço de streaming Prime Video.

Ser enterrado vivo é sem sombra de dúvida pior do que ser derrotado pela mera mortalidade. Allen enfrentou essa alegação em 1992, ele negou veementemente, foi investigado e nunca foi considerado culpado. No relato de Moses Farrow, seu filho adotivo com Mia Farrow, dá a entender que as acusações foram um meio que a rejeitada Farrow encontrou para sabotá-lo, após ele ter casado com a filha desta, Soon Yi Previn. Moses alega também ter apanhado da mãe.

A Rainy Day in New York é estrelado por Jude Law, Selena Gomez, Elle Fanning e Timothée Chalamet, os três últimos nem eram nascidos quando a acusação veio à tona. A carreira de Allen se estende por toda a vida e o grande número de prêmios que ele, seus atores e outros colaboradores foram indicados e/ou venceram é difícil de calcular. Nenhum outro diretor fez a carreira de mais atrizes e escreveu com tanto brilhantismo para papéis femininos, incluindo, em 2014, Cate Blanchett, que se tornou a sétima atriz a ganhar um Oscar em um filme dele por Blue Jasmine.  Nenhum outro trabalho de diretor com estrelas femininas chega perto de Allen. Com isso em mente, o próprio Allen até disse que ele deveria ser um garoto-propaganda do #MeToo. Muitas dessas estrelas estão com ele agora. Algumas, como Mira Sorvino, que ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme Poderosa Afrodite, revelaram que nunca mais trabalhariam com o diretor. Essa postura lhe rendeu credibilidade com o #MeToo. De sua parte, Blanchett tomou a posição sensata de dizer que as mídias sociais não deveriam ser juiz, júri ou executor de carreira de ninguém.

O dia de chuva de Allen em Nova York é bom? Nós não sabemos, e esse é o ponto. A Amazon sabia sobre a alegação contra Allen quando assinou o acordo de múltiplos filmes com ele. Nada sobre essa alegação mudou. Como Javier Bardem, que trabalhou em Vicky Cristina Barcelona, fez questão de lembrar, nenhum fato sobre essa acusação horrenda, veementemente negada, mudou em nada.

A decisão da Amazon é uma forma de censura. Mas, dado o enorme poder da empresa (e do Facebook, Apple,  Netflix e Google) que controlam tudo, e coletam e armazenam nossos dados pessoais sobre o que compramos, o que assistimos e o que pensamos, é lucrativo destruir carreiras para salvar a própia pele – incluindo a carreira do diretor mais prolífico e premiado da história de Hollywood. Se a Amazon pode destruir a carreira de Woody Allen, qual carreira não pode destruir?

Por fim, lembre-se que certa vez, à Woody Allen foi perguntado: “Qual é o seu relacionamento com a morte?” Ele disse, “continua a mesma … Eu sou fortemente contra isso”. Acho que ele não cogitava morrer em vida por causa de empresas que se aliam a movimentos que se dizem libertários, mas não são na prática.

Fontes:

 

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Categorias:Cinema, Crônicas e Artigos

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