Crítica: “O Assassinato de Gianni Versace” é para maratonar na Netflix

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Já está disponível na Netflix, American Crime Story: The Assassination of Gianni Versace (2018), de Ryan Murphy (Glee), minissérie para maratonar os nove episódios de uma vez ou em poucos dias. Poderia ser mais viciante, não fosse algumas escolhas ousadas de montagem que quebram o ritmo. Conta a história de Andrew Cunanan (Darren Criss), o assassino do estilista Gianni Versace (Edgar Ramirez), que o matou a tiros na porta de sua majestosa mansão em Miami, em 1997. A cena do crime, aliás, serve de prólogo e é apoteótica como uma ópera trágica ao som dos violinos de Tomaso Albinoni, prenunciando o tom exagerado que por vezes a trama tem.

Versace, entretanto, é coadjuvante. A minissérie acompanha o assassino, um jovem ambicioso e mentiroso compulsivo, que enxerga no estilista italiano uma escada para seu alpinismo social. Darren Criss está simplesmente espetacular, compondo o personagem a perfeição na sua escalada de jovem abusado a serial killer, sim, porque antes do seu crime mais conhecido, ele matou pelo menos mais quatro outros homens. E é nessa trajetória, a jornada que o leva até Versace, que o criador Murphy está interessado.

Excetuando o último episódio que precisa colocar os pingos nos is, a história é contada de trás para frente: da sua ligação com as vítimas até a infância conturbada. É uma escolha compreensível para impedir que a minissérie caísse na monótona cronologia temporal, com inicio, meio e fim. Por outro lado, tira um pouco o impacto, visto que personagens que já haviam morrido em episódios anteriores reaparecem vivos no episódio seguinte, e as ações que eles fazem não despertam tanto interesse por que já sabemos o que vai acontecer. Se o espectador se concentrar só nisso, perde um pouco a graça, mas Murphy, com a ajuda do seu excelente ator, quer mesmo fazer um estudo de personagem. Quem ele é importa mais do que o que ele faz. E quem é Cunanan? Um jovem que mata para se exibir? Uma vítima dos traumas da infância (há uma aterradora cena de abuso, não pelo que mostra, mas pelo que esconde)? Um psicopata insensível? São perguntas que intrigam e fascinam tanto a gente como os homens gays que tiveram o azar de cruzar o seu caminho.

Um ponto positivo da série é não apenas ambientá-la como um marco da crônica policial dos anos 1990, mas situá-la dentro do pensamento da época. A homofobia, um dos temas caros à Murphy, está presente em toda a série. Note como Donatella Versace (uma caricata Penélope Cruz) apenas tolera o relacionamento de décadas do irmão com Antonio (o cantor Ricky Martin), mas não o respeita; como homens eram obrigados a viver uma vida de mentiras para serem aceitos pela sociedade; como o ambiente do exército era perverso à homossexualidade e como a polícia escandalosamente fez vista grossa para a escalada de crimes de Cunanan, considerando-a como “coisa de bicha” e só oferecendo a devida atenção ao caso quando atingiu o nome de alguém famoso. De lá para cá, muita coisa mudou, outras foram apenas amenizadas e, infelizmente, algumas continuam na mesma.

Assim como iniciou a minissérie magistralmente, Murphy a encerra adequadamente, posicionando mestres como Versace e perturbados como Cunanan nos seus devidos lugares. É cheia de excessos, mas é também de deixar um nó na garganta. Em tempo: a primeira temporada da antologia “American Crime Story” começou com a levemente superior O Povo Contra O.J. Simpson e vale muito assistir, especialmente pela atuação de Sarah Paulson.

 

 

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Categorias:Críticas, Televisão

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