“A Favorita” tira o mofo dos filmes de época graças à maluquice de Yorgos Lanthimos

a favorita

É sagrado, todo ano na temporada de prêmios temos um filme de época britânico que somos obrigados a aturar como se fossem de excepcional qualidade, em retrospecto: O Destino de uma Nação, Florence Foster Jenkins, A Teoria de Tudo, O Jogo da Imitação, Philomena, etc. Tirando uma boa idéia aqui, uma atuação ótima ali, todos cheiram a mofo. O filme britânico da vez é A Favorita¸ de Yorgos Lanthimos, indicado a 10 Oscars. Ao contrário dos seus pares, entretanto, Lanthimos espana a poeira do seu filme, perfuma o ar e arredonda os quadrados dos castelos seculares da Inglaterra em uma narrativa criativa e original.

Usando uma grande angular em muitas cenas, a famosa câmera olho de peixe, o diretor conta a história da frágil Rainha Anne (Olivia Colman), que ocupa o trono no início do século 18 na Inglaterra. Doente e desinteressada pelo cargo – a não ser quando lhe convêm, como para casar pessoas a seu bel-prazer-, ela deixa o reino nas mãos da Duquesa de Marlborough, Sarah Churchill (Rachel Weisz), sua amiga, porta-voz e amante. Essa parceria é ameaçada pela chegada da prima de Sarah, Abigail (Emma Stone), nova criada que logo se torna a queridinha da majestade e começa a ocupar todos os lugares da duquesa, inclusive na cama. Está feito o triângulo, as primas vão vomitar, cair e sangrar pelo amor da rainha e para provar que uma supera a outra em inteligência e poder.

É de consenso geral que as três atrizes estão em estado de glória no filme. Colman, brilhante como a Rainha, e Stone como a ardilosa criada, modulam suas personagens e conseguem em questão de segundos fazer o público passar do nojo à piedade. A última, única americana no elenco principal, tem um desafio a mais para criar um sotaque britânico que soe verdadeiro – tarefa que já derrubou atrizes como Anne Hathaway em Um dia e Cameron Diaz em Gangues de Nova York -, mas dá conta do recado, honrando o voto de confiança que ganhou da crítica e do público, dois anos atrás, por La La Land (2016). Weisz tem a personagem mais plana durante a narrativa, mas nem por isso está menos fenomenal e ferina.

Com seu ar de escárnio, quase como se fosse uma sátira dos filmes de realeza, suas perucas e roupas extravagantes e suas imagens filmadas de baixo para cima, sem solenidade ou reverência, A Favorita é o filme que a Academia de Hollywood estava pedindo, para se manter a mesma e, simultaneamente, para dar um alô ao futuro. Os filmes indicados esse ano se dividem entre os quadradões que sempre foram reconhecidos como Green Book e Nasce uma Estrela e os inesperados Roma, um filme mexicano de uma rede de streaming e Pantera Negra, um filme de super-herói. Lanthimos cria o elo entre todos esses, controla suas loucuras vistas nos absurdamente originais Dente Canino e O Lagosta para renovar um gênero do cinema que estava preso em sua zona de conforto. Desse modo, por dominar tão bem a narrativa autoconsciente que tinha em mãos, merece sair do Teatro Dolby no dia 24 de fevereiro com o título de Melhor Filme.

Nota: 9,5/10

Trailer:

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Categorias:Cinema, Críticas

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