Afinal, qual a importância da crítica cinematográfica?

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Qual é a função e o papel da crítica para o cinema desde sua “invenção”? Qual a sua relevância na atualidade, na era da internet? Bem, o respeitado diretor François Truffaut (Os Incompreendidos) começou a carreira como crítico de cinema na antológica Cahiers du Cinéma e, ao listar os “sete pecados capitais da crítica”, foi bem profético ao afirmar que “o aparato financeiro e publicitário do cinema e o prestígio das estrelas são tamanhos que a crítica, ainda que unanimemente desfavorável, seria impotente para brecar a marcha para o sucesso de um filme ruim com grande orçamento. O crítico só é eficaz a respeito dos pequenos filmes ambiciosos, mas sem grandes estrelas”.

A descrença de Truffaut a respeito do próprio ofício revela uma amarga clareza e traz a tona o velho embate entre a opinião do público e da crítica. Qual a relevância de um texto que o leitor não acata? Woody Allen, no filme Sonhos de um Sedutor (Play it again Sam, 1972), no qual além de ser o roteirista é também o ator principal, interpreta um crítico de cinema e é acusado pela ex-mulher de ter escolhido essa profissão por ser um mero “espectador da vida”, já que não a vive plenamente. Ainda que se trate de uma ficção (e podemos interpretar essa cena como uma alfinetada de um artista nos críticos que o julgam), esse trecho é válido? Uma revisão histórica da crítica cinematográfica é necessária para compreensão da questão.

Retrospecto

O início da crítica cinematográfica ocorreu na década de 1920, quando o cinema começava a ser visto como arte – e D. W. Griffith havia implantado a linguagem própria do cinema. Começaram a surgir, então, as revistas especializadas na área. Não é coincidência que no mesmo período, as vanguardas europeias (surrealismo, dadaísmo, futurismo, expressionismo, etc.) surgiam no velho continente. O cinema era visto também como um meio de comunicação revolucionário e despertou o interesse dos noticiários que começavam a destacá-lo como “a sétima arte”. A partir da década de 1930, a crítica, que tinha caráter meramente informativo, passa a usar um tom mais opinativo, com teor de crônicas e ensaios poéticos.

Nos anos 1950, o jornalismo do Brasil começa a substituir o tom opinativo, que tinha como modelo o jornalismo francês do início do século, e o troca pelo método informativo, importado do jornalismo americano. Apesar disso, a crítica de cinema viveu seu auge no país, com uma onda de renovação da produção textual e de experimentação gráfica. As análises se aprofundam discutindo aspectos formais, técnicos e estéticos.

Até o final da década 1970, a crítica vive seus momentos de glória, incentivando os realizadores a criarem uma identidade nacional para o cinema produzido no país. A resposta dos cineastas é o Cinema Novo, surgido na década de 1950, influenciado pelo neo-realismo italiano e pela nouvelle vague francesa, que lutava por um cinema com mais realidade, mais conteúdo e menor custo. O período de glória da crítica começa a esmorecer a partir de 1980, quando tanto o cinema como o jornalismo passaram a ser mais industrializados e padronizados e a relação dos leitores com o texto e com o próprio cinema começa a se modificar. Os filmes passam cada vez mais a ser vistos como “produtos” e menos como “arte”. Desde então, a crítica perdeu o tom analítico e passou a ganhar um tom mais superficial, típico de resenhas. As críticas mais aprofundadas, todavia, continuaram a ser vistas em veículos especializados na sétima arte, como os inúmeros sites de cinema que surgiram com o advento da internet.

A beleza da crítica

Através desse breve retrospecto, entendemos que o jornalista especializado em cinema não é um mero “espectador da vida”, ao contrário, a crítica está imbricada nas engrenagens do jornalismo cultural e faz parte ativa das mudanças políticas e sociais que transformam o estudo da arte. Ao descrédito de Truffaut a respeito da validação dessa especialização do jornalismo, vale responder com o otimismo do jornalista Daniel Piza: “mesmo que lhe restem apenas algumas linhas num canto da página, essas linhas podem ofuscar todo o restante. O leitor, tantas vezes menos preconceituoso quanto ao jornalismo do que os próprios jornalistas, saberá enxergar”.

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Categorias:Cinema, Crônicas e Artigos

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