“Green Book” se destaca pela simplicidade e grandes atuações

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Estamos em 1962 e o ítalo-americano Tony Lip (Viggo Mortensen) é evidentemente racista. Sabemos disso logo no início de Green Book (2018), quando ele joga no lixo dois copos que os encanadores negros usaram em sua casa. Mas Tony precisa de dinheiro para sustentar a mulher Dolores (Linda Cardelini) e os dois filhos, por isso aceita ser o segurança de Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), um pianista negro de classe alta, durante uma turnê pelo intolerante sul dos Estados Unidos, o pior lugar para se estar na época da insurgência negra contra as leis discriminatórias. Na viagem, eles levam consigo o absurdo “The Negro Motorist Green Book”, um guia que trazia dicas para que afro-americanos encontrassem hotéis e restaurantes que aceitassem recebê-los. Durante toda a duração do filme, os dois personagens são confrontados com situações racistas, no típico feel good movie americano em que, claro, o motorista vai aprender que racismo é ruim, após formar uma amizade genuína com o pianista (na vida real, os dois permaneceram amigos até o fim de suas vidas).

O destaque fica por conta das atuações. Sou um dos poucos que não ficou tão fascinado por Ali em Mooonlight (2006), acho que nesse aqui ele está bem melhor. Com bastante discrição (às vezes, basta um olhar) notamos a profundidade que o ator dá ao personagem cheio de classe, que decidiu se esconder dentro de si mesmo para sobreviver em um mundo no qual todos os ambientes são hostis a ele. Tive um pouco de problema com a caracterização de Mortensen que obviamente não tem nada de ítalo-americano, mas o eterno Aragorn consegue driblar qualquer rejeição com uma atuação terna e espalhafatosa, muito diferente das quietas e metódicas que esperamos dele.

Com cinco indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme (merece apenas para os atores, o Globo de Ouro de Melhor Comédia foi um exagero), o longa está rodeado de polêmicas com direito a tuítes islamofóbicos por parte do roteirista – que causou uma saia justa com Ali, o primeiro muçulmano a ganhar o Oscar -, comportamentos passados inapropriados do diretor Peter Farelly e o uso da palavra proibida que começa com “N”, dita pelo branco Viggo Mortensen. Como tudo hoje em dia, as polêmicas ganharam uma repercussão muito estridente, maior do que deveriam. A mais grave a meu ver é a acusação por parte de parentes de Don Shirley de que foram vilanizados na história, mas mesmo nesse caso, a produção do filme afirmou que a família teve acesso ao roteiro antes das filmagens. Não acredito, porém, que seja um filme sobre racismo para branco ver. Fica bem claro que é uma história contada sob o ponto de vista de Tony Lip (um dos roteiristas, inclusive, é Nick Vallelonga, o filho do verdadeiro Tony) e que Don Shirley é um personagem importante, mas coadjuvante.

Em tempo: para quem estiver com inglês em dia, recomendo a leitura da defesa que John Singleton, primeiro diretor negro indicado ao Oscar, fez do filme no site da Sasha Stone.

Nota: 8/10

Trailer:

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Categorias:Cinema, Críticas

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