“Selvagem”: filme francês mostra como desordem pode se transformar no imperativo da vida

sauvage

Selvagem é um adjetivo tão forte que volta e meia aparece no título de algum filme: Selvagens, Instinto Selvagem, Rosas Selvagens, O Garoto Selvagem e por aí vai. Poucos filmes, porém, honram a palavra tão bem quanto o Selvagem (Sauvage) de 2018, dirigido por Camille Vidal-Naquet. O prólogo do filme francês causa estranheza: um médico faz um exame que vai ficando cada vez mais íntimo em seu paciente. Não fosse as respostas precisas do rapaz sobre o seu desconforto físico poderia ter sido retirado de um filme pornô. Logo, estamos acompanhando o dia-a-dia do tal rapaz, Leo (Félix Maritaud), garoto de programa de 22 anos, que faz ponto na beira da estrada perto de um aeroporto. Aos poucos, vamos descobrindo que ele é um andarilho e usuário de drogas pesadas. De sua família, de seu passado não sabemos nada. Leo é bicho solto no mato.

Entre um programa e outro, ele divide um cliente com outro prostituto (Éric Bernard) por quem se apaixonará, que nota um fato engraçado em Leo: ele os beija, não só transa. Oferece de bom grado a quem quiser o seu carinho. O filme dá a entender que Leo tem algum déficit de inteligência ou talvez um déficit de oportunidades na vida, que o levaram a ser carente e entender tão bem a carência do próximo. Inevitavelmente, Leo se encanta por qualquer um que lhe dê um pingo de atenção.

De uma visita médica para tratar de uma tosse incessante temos a cena mais bela do filme. Durante a entrevista com a médica, Leo se espanta quando ela pergunta se ele deseja tratar a dependência química. Por que faria isso? O garoto simplesmente não desenvolveu nenhum senso crítico, nem mesmo para observar o que lhe faz mal na vida. Durante o exame físico, o toque maternal da médica enternece o coração de Leo, que não tem outra opção senão abraçá-la.

O filme, vencedor do prêmio de ator revelação do Festival de Cannes 2018 para Félix Maritaud, tem bastante cenas de nudez, mas não de sexo explícito. Mesmo assim choca em muitos momentos, graças ao bom trabalho de câmera e montagem. As imagens são cruas e uniformes, tanto para mostrar a doçura como a crueldade. Ao final, a mensagem que o filme nos passa é doída. Versa sobre como muitas vezes a desordem e o caos – a selvageria, em suma – se tornam uma constante em nossas vidas e chegam a nos deixar mais confortáveis do que a segurança de um futuro redentor.

Nota: 7/10

Trailer:

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Categorias:Cinema, Críticas

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