10 pérolas do cinema perdidas no YouTube

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Não sei qual é o nível de legalidade do upload desses filmes no site de vídeos, mas de qualquer forma eles estão lá. Acho uma maravilha principalmente para cinéfilos que não possuem acesso a cinemas, mostras, festivais e sabem que a Netflix é bem falha quando se trata de clássicos e filmes alternativos. Entre filmes antigos, documentários, cults e independentes recentes, selecionei 10 para essa lista. A playlist com todos os filmes está no final do texto.

  1. O Piano (Jane Champion, Austrália, 1993)

A sublime Holly Hunter, em silêncio absoluto, sangrando na chuva pela violência que sofreu nas mãos de Harvey Keitel, que literalmente tirou sua razão de viver, corresponde à beleza do horror. Filme inteligentemente dirigido por Champion que, infelizmente, tem um final um pouco covarde, mas que é belo e melancólico. Nota: 8/10.

  1. A Mulher de Areia (Hiroshi Teshigahara, Japão, 1964)

O entomologista Jumpei pede licença da universidade onde trabalha para passar o fim de semana em Tottori, único deserto do Japão, a fim de coletar insetos raros. Ele pernoita numa casa, construída entre enormes dunas, onde habita uma estranha mulher que o aprisiona, não por meio da força, mas simplesmente por que ele (literalmente) não consegue sair do buraco em que se enfiou. A areia nesse filme funciona quase como água: dependendo do estado dos personagens é esfarelada, sólida ou úmida – repare como após a cena de sexo, Teshigahara corta para uma enorme duna em estado leitoso, numa das mais geniais metáforas para o clímax sexual no cinema. Em resumo, o filme é sobre os efeitos das areias do tempo incidindo sobre o isolamento, voluntário ou não, que enlouquece, domestica e, no fim, reconforta. Para sentir a areia entrando em cada poro do seu corpo. Nota: 10/10

  1. Onibaba – A Mulher Demônio (Kaneto Shindô, Japão, 1964)

O filme é baseado em uma história folclórica do Japão. Passa-se no século 14, com o Japão em guerra. Uma mulher e sua nora sobrevivem de roubar pertences de soldados e vendê-los na clandestinidade após matá-los. Elas jogam os corpos em um enorme (enorme mesmo) poço cavado no chão, escondido entre os juncos. Após a confirmação da morte do filho, a velha mulher teme perder a nora, que foi seduzida por um combatente que sobreviveu. Um belo dia, seus problemas se resolvem quando um soldado perdido, com uma máscara demoníaca grudada no rosto, bate em sua porta. Ela arquiteta um plano para roubar a máscara e amedrontar a nora. É um poderoso conto sobre os perigos de se render ao primitivismo e perder a civilidade. Sabe quando Álvaro de Campos, no seu poema Tabacaria, fala: “quando quis tirar a máscara, estava pegada à cara”, então, é bem isso. Nota: 8/5/10

  1. Parque da Punição (Peter Watkins, Inglaterra, 1971)

Ao mesmo tempo um pseudocumentário incisivo sobre a Guerra do Vietnã (1955-1975) e um protesto contra qualquer regime totalitário. Na trama, o governo americano oferece duas escolhas às pessoas que se rebelam contra o sistema (jovens radicais, autores, ativistas, pacifistas, desertores, cantores de protesto, feministas e poetas): as sentenças desproporcionalmente severas ou o Parque da Punição. Neste parque, os rebeldes devem atravessar o deserto em até três dias até alcançarem uma bandeira dos Estados Unidos hasteada no local. Caso consigam sobreviver ao calor extremo e a perseguição (disfarçada de treinamento) dos policiais, ganham a liberdade. O filme acompanha dois grupos: um que já fez a escolha pelo parque e outro que ainda está sendo interrogado. O primeiro grupo vai se arrepender rapidinho de sua escolha enquanto o segundo vai se esgoelar com os juízes totalmente partidários. Watkins deixa claro que é o filme de esquerda, mas a parte do tribunal – que às vezes é mais calorosa que a parte do parque – levanta discussões políticas bem interessantes que, vejam só, podem agradar até a direita. Nota: 9/10

  1. Sonho Tcheco (Filip Remunda e Vít Klusák, República Tcheca, 2004)

Pouco conhecido do grande público, o documentário se tornou referência para criativos e estudantes de comunicação, em especial os de publicidade. Dirigido por Remunda e Klusák, então dois alunos da escola de cinema de Praga, que espalharam pela capital da República Tcheca anúncios para divulgar a inauguração do “Sonho Tcheco”, um supermercado que não existe, mas que supostamente seria o paraíso de consumo para todo cidadão tcheco. A euforia, e posterior revolta, causada na população são de rir de constrangimento e de nos fazer questionar sobre as armas que o capitalismo se utiliza para nos seduzir e nos fazer consumir mais. Crítica completa aqui. Nota: 8/10

  1. O Homem que Plantava Árvores (Frédéricl Back, França, 1987)

Vencedor do Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação em 1988, conta a saga de um único pastor que refloresta um vale estéril. As imagens têm tons impressionistas e a história é bela e edificante, com uma grande lição sobre sustentabilidade, muito bem-vinda para os dias de hoje. Nota: 10/10.

  1. Luz de Inverno (Ingmar Bergman, Suécia, 1963)

“Se deus realmente não existe, isso faria alguma diferença?”, é o principal questionamento desse filme, primeira parte da Trilogia do Silêncio (as outras duas são igualmente sublimes: Através de um Espelho e O Silêncio). Na história, Max Von Sydow (no seu melhor desempenho em um Bergman) lê no jornal que a China possui a bomba atômica e pretende usá-la – lembre-se estamos em 1963, em plena guerra fria. Ele vai à igreja, buscando palavras de conforto do padre interpretado por Gunnar Björnstrand, outro ator cativo de Bergman. O padre não consegue ajudá-lo, por que está passando por uma crise de fé assim come ele. É uma boa pedida assistir esse filme e em sequência ver No Coração da Escuridão, de Paul Schrader, lançado no ano passado, que é uma revisão indireta desse clássico. Nota 8/10.

  1. Raul: O Início, o Fim e o Meio (Walter Carvalho e Evaldo Mocarzel, Brasil, 2011)

Era de se esperar que o documentário seguisse o espírito doidão do seu objeto de estudo: Raul Seixas. Carvalho e Mocarzel optam, porém, pela racionalidade ao negar o próprio título do filme e contar em ordem cronológica a trajetória do maluco beleza. Parafraseando o próprio cantor, eles traem a si mesmo? Não necessariamente. O material reunido pelos dois é um verdadeiro deleite para qualquer fã. É uma pena que na ânsia de abranger o máximo possível a vida do cantor, o filme se estende demais em momentos desnecessários como Pedro Bial destruindo “Tu és o MDC da minha vida” e a constrangedora apresentação ao lado de Marcelo Nova no Domingão do Faustão. Esta falta de apuro pesa na balança, mas nada que a genial “Canção para minha morte” não consiga redimir ao final. Nota: 8/10

  1. Michael (Markus Schleinzer, Aústria, 2011)

Mesmo quando sugere mais do que mostra, o tema delicado da pedofilia sempre embrulha o estômago. Na história deste filme lançado em 2011, Michael é um corretor de seguros que sequestrou, aprisionou e, agora, abusa de todas as maneiras imagináveis o pequeno Wolfgang em seu porão. O longa mostra o aborrecido cotidiano de Michael e seu relacionamento repulsivo com a criança. Em resumo, a máxima que vale para o longa é a velha: “olhe bem, você nunca sabe quem realmente é seu vizinho/irmão/colega”. É batido? É. Mas não deixa de ser verdade. Se não revoluciona, pelos menos é um filme com boas intenções e bem conduzido. Nota: 7/10

10.Aurora (F. W. Murnau, EUA, 1927)

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Em Aurora (1927), obra-prima incontestável de F. W. Murnau, a idéia tipicamente cinematográfica da dicotomia entre campo/cidade fica bem clara na figura das duas mulheres da trama: a Esposa do camponês, de aspecto virginal, que será a vítima da Mulher da Cidade, esta tem aspecto serpentino e convence o Esposo a afogar a esposa para fugir com ela. Artística e tecnicamente irrepreensível mesmo com quase 100 anos de idade. Crítica completa aqui. Nota. 9.5/10

Playlist:

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