“Aurora”, de Murnau, o filme mais belo de todos os tempos

sunrise

“Esta canção do Homem
e de sua Esposa…
é de nenhum lugar e
de todos os lugares;
é possível escutá-la em qualquer
lugar e em qualquer hora.
Pois onde quer que o sol
nasça e se ponha,
seja no tumulto da cidade
ou sob o céu aberto da fazenda,
a vida é muito semelhante;
às vezes amarga, às vezes doce.”

É algo tão implícito no nosso inconsciente que a gente nem repara: no cinema, o campo é a representação da pureza e a cidade a representação da perdição, o campo é a vitória espiritual e a cidade é o sucesso material, o campo é literalmente o interior, pacífico e aconchegante, e a cidade é o exterior, desconhecido e amedrontador. Em Aurora (1927), obra-prima incontestável de F. W. Murnau, essa ideia fica bem clara na figura das duas mulheres da trama: a esposa do camponês (Janet Gaynor), de aspecto virginal, que será a vítima da mulher da cidade (Margareth Livingnston), amante de seu esposo (George O’Brien).

A amante só se veste de preto e se movimenta sinuosamente como uma serpente. Em uma cena, inclusive, ela se esconde em um tronco de uma árvore tal qual um bicho para espreitar o que acontece no Éden. Como uma víbora, ela seduz o camponês e o convence a afogar sua esposa. O camponês se arrepende no último minuto e a esposa foge para cidade. Ele, dilacerado, vai atrás dela para reconquistar seu amor e, assim, ganhamos de Murnau os mais lindos episódios da saga do homem para conquistar de novo a confiança da mulher. Em meio à situação os automóveis invadem a simples-cidade.

François Truffaut (Os Incompreendidos, Jules e Jim, A Noite Americana) disse que esse é o filme mais lindo do mundo e ele tem razão. O jogo de luz e sombra no campo com a lua sendo desvanecida pelas nuvens é coisa linda, de arrepiar. Os cenários gigantes e distorcidos na cidade, típicos do expressionismo alemão que Murnau trouxe para os Estados Unidos, são opressores e magníficos. A trilha sonora é um espetáculo, com destaque para a sequência no terceiro ato do filme quando o camponês está no barco e a sinfonia soa quase como um canto de desespero.

Selecionei algumas cenas que provam a opinião de Truffaut:

aurora 1

Há rumores de que George O’Brien foi forçado a usar botas de chumbo nas primeiras passagens do filme, quando o homem está sobrecarregado de culpa por sua decisão de matar sua esposa.

aurora 8.JPG

A esposa, de aspecto virginal, representada quase como uma santa amorosa e piedosa.

aurora 2

A Amante representa a decadência moral da cidade.

aurora 3

Os camponeses oprimidos pelo tumulto da cidade.

aurora 4

A manutenção do amor atinge tons sacros ( note como a Igreja é descomunal).

aurora 6

Após a reconciliação, a cidade não os assusta mais.

aurora 5

A amante se esconde no tronco da árvore, como uma serpente.

aurora 7

Imagens que falam: sinfonia do desespero.

Nota: 9,5/10

O filme é fácil de ser encontrado no YouTube, legendado e em alta resolução:

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Categorias:Cinema, Críticas

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