“Pantera Negra” e a representação vazia da raça

Pergunta-me um amigo meu, após ver o Globo de Ouro: “E qual é essa qualidade de Pantera Negra? Efeitos especiais?”. O filme concorreu em três categorias. Explico-lhe que também não sou muito fã do longa, mas que vejo sua presença nas premiações como uma celebração pelas qualidades técnicas do filme e pelo imenso e surpreendente sucesso financeiro (R$ 2,5 bilhões de bilheteria).

Ele me fala que a indústria cultural se aproveita das lutas identitárias para vender, retruco que não vejo problema de representar dignamente negros e lucrar com isso. Fora que o sucesso do filme abre possibilidades tremendas para cineastas e atores negros no futuro deixarem de ser coadjuvantes de brancos e passarem a ser protagonistas de suas histórias, com a confiança prévia que possa dar certo por que tem Pantera Negra como parâmetro.

Quanto aos efeitos especiais, afirmo que é uma qualidade sim, oras, por que não? E o vilão do Michael B. Jordan (Killmonger) é muito bem construído, fora isso, reafirmo que não o estimo tanto assim, mas que não importa, por quê o filme está sendo celebrado pelos afro-americanos que viram qualidades nele e isso basta. Aí ele me pegou: “o vilão de Michael B. Jordan é uma versão esteriotipada de um revolucionário. Extremista, ditatorial. A velha dicotomia entre bem x mal que ridiculariza a crítica radical ao capitalismo. É uma pena essa celebração, pois pressupõe a possibilidade de uma democracia racial sob o capitalismo. Isso mostra o nível de alienação que as pessoas estão”.

Pensei em responder que ele, como homem branco, não podia ditar como pessoas negras devem ver o filme, mas vi que o problema dele nem era tanto com a questão racial, mas econômica e geopolítica. E também que – o assunto cinema já estava longe – o vilão Killmonger era apenas um órfão ressentido em busca de vingança, sem esse viés revolucionário. Digo que ele (o vilão) acrescenta ao filme por que com sua entrada, a trama ensaia um bonito drama familiar sobre responsabilidade e lealdade, mas infelizmente se perde entre lutas e efeitos especiais. Mas não disse, por que seria o mesmo que falar com as paredes.

Contudo, se pudesse dar uma dica às pessoas diria que 1) a pretensão dos filmes da Marvel é entretenimento 2) a grande massa pode até gostar de representatividade, mas nunca irá ao cinema querendo profundidade, incluindo os negros e 3) não é função de todo filme ser político, para isso temos Spike Lee e sua bem-vinda falta de sutileza. Aliás, se considerarmos que o cinema em sua essência é feito para nos distrair, o Pantera Negra está mais correto que o Infiltrado na Klan, por exemplo.

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Categorias:Cinema, Crônicas e Artigos

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