“Nasce uma Estrela”, além de ser remake, é um plágio?

Nasce uma Estrela – Versão 2018

É um desses causos de Hollywood: em menos de 10 anos, Bradley Cooper passou de galã de comédias de gosto duvidoso para cineasta aclamado, graças ao remake do remake do remake de Nasce Uma Estrela. Desde a estreia no Festival de Veneza de 2018, esperava-se uma grande bilheteria e a palavra “Oscar” começou a ser mencionada com frequência. O sucesso financeiro foi melhor do que esperado e as indicações quase certas em várias categorias do Oscar (sim, incluindo uma merecida de melhor atriz para Lady Gaga) poderão se confirmar no dia 22 de janeiro, data para o anúncio dos indicados ao maior prêmio do cinema.

Há agora quatro filmes de Nasce Uma Estrela (de 1937, 1954 – o melhor, 1976 e 2018), abrangendo oito décadas, todos com o mesmo título e enredo: uma talentosa mulher desconhecida conhece um astro já consagrado, eles se apaixonam, a carreira dela sobe, a dele desce. Como os contos de fadas seculares, alguns pontos do enredo principal vão se adaptando aos tempos, mas a fórmula se mantém, como uma quase-franquia – se pararmos para pensar, a mais duradoura de Hollywood.

O produtor David O. Selznick ao lado de Vivien Leigh

A Warner Bros possuiu os direitos da história desde 1954 (o filme de Cooper é a terceira versão do estúdio), mas, na verdade, a saga começou como um filme independente. Produzido por David O. Selznick e dirigida por William Wellman, o original foi estrelado por Janet Gaynor como uma mulher humilde de cidade pequena tentando alcançar o sucesso em Hollywood, que acaba se apaixonando pelo personagem de Fredric March, o ídolo alcoólatra. Os críticos se derreteram pela história que mostrava Hollywood como Hollywood é, e a Academia a indicou a 7 Oscars.

O que poucos lembram é que Selznick já havia produzido um filme semelhante cinco anos antes: What Price Hollywood? (1932). No Brasil, o filme ganhou o sucinto título de Hollywood. Olha só a sinopse: “a carreira de um garçonete decola quando ela conhece um amável produtor beberrão de Hollywood, que comete suicídio. Assim, ela tenta juntar os cacos e refazer a vida”. Lembra alguma coisa?

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What Price Hollywood? (1932)

O mote sobre a exposição doentia da vida das celebridades era uma paixão de Selznick. Ele queria um filme com o título de “Tudo sobre Hollywood”, que fosse um retorno triunfal para Clara Bow, estrela da era de cinema mudo e a primeira “namoradinha” de Hollywood que teve sua já trágica vida devastada pela fama. Para escrever o roteiro, ele convocou a jornalista e roteirista Adela Rogers St. Johns, conhecida à época como a maior repórter do mundo. St. Johns era angelina de nascença e fazia cobertura jornalística para a cidade de Los Angeles desde os anos 1910, logo, sabia onde os corpos estavam enterrados em Hollywood. Ela, então, renomeou a história, baseando-se na relação real entre a estrela de cinema mudo Colleen Moore e seu marido/produtor, John McCormick, um alcoólatra.

Como sabemos hoje em dia, Selznick estava certo sobre em transformar o enredo que tinha em mente em filme, mas errado sobre Bow, que não tinha condições físicas e psicológicas para trabalhar. Em vez dela, Selznick escalou Constance Bennett para o papel principal. A maior diferença é que a personagem de Bennet em What Price Hollywood?, ao contrário das heroínas de Nasce uma Estrela, não é talentosa, é apenas uma atriz correta, moldada e comercializada pelo estúdio ao seu bel-prazer. Selznick recrutou um jovem cineasta desesperado por um filme de sucesso, George Cukor, para dirigí-lo. O resultado foi um filme curto de 88 minutos que não foi um sucesso de bilheteria – ao contrário, perdeu dinheiro, para desespero da produtora RKO – mas que foi bem recebido pelos críticos, permitindo que Cukor finalmente se estabelecesse como um diretor sério e sofisticado. Rogers St. Johns recebeu uma indicação ao Oscar de melhor história.

Todas as versões da mesma história.

Cinco anos mais tarde, como produtor independente, Selznick (lembre-se, era uma obsessão para ele) imaginou um maior e mais ousado What Price Hollywood?: o Nasce Uma Estrela de 1937, convidando Cukor para dirigí-lo. A RKO não ficou nada satisfeita com o projeto de Selznick considerando-o uma cópia. Um processo de plágio contra o produtor estava sendo estudado e Cukor, cautelosamente, declinou da proposta, mas voltou à história 17 anos depois pela simples oportunidade de trabalhar com Judy Garland no remake de 1954, um musical que era um sonho para a atriz. Assim, What Price Hollywood? foi, eventualmente, renascido como um épico e extravagante musical, na melhor versão até agora. O tour-de-force de Garland rendeu uma das melhores atuações da história do cinema.

O fato é que o processo de plágio sabiamente não foi levado adiante. Sabiamente por que nenhum dos Nasce Uma Estrela é um plágio de What Price Hollywood?, eles apenas se aproveitam da estrutura de uma velha história, um conto humano e trágico, sobre queda e ascensão e sobre o preço da fama, que vai sendo recontado de geração em geração. Seria como um descendente de William Shakespeare processar a Disney por plágio em O Rei Leão, uma revisão de Hamlet. Ademais, Hollywood ama a si mesma e este enredo é irresistível demais, basta notar que de vez em quando surgem refilmagens enviesadas de Nasce Uma Estrela como O Artista (2011) e La La Land (2016). E, assim, a história segue se ressignificando.

Para saber mais:

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Categorias:Cinema, Crônicas e Artigos

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