“Roma”, o admirável mundo novo de Alfonso Cuarón

Roma

Na realidade mexicana dos anos 1970 não havia dúvidas sobre o papel de cada um na hierarquia social. As pessoas não eram divididas pelas cores das vestimentas como em Admirável Mundo Novo – seminal romance distópico de Aldous Huxley, publicado pela primeira vez em 1932 – mas pela cor da pele. Prova disso é o filme Roma, de Alfonso Cuarón, lançado pela Netflix, nono longa-metragem do cineasta, que recorda passivamente suas memórias de infância, através do olhar da empregada Cleo (Yalitza Aparicio), serviçal mixteca (um povo ameríndio mexicano) que trabalhava incansavelmente para deixar a casa em ordem e satisfazer todas as vontades dos patrões brancos e seus quatro filhos, entre eles o alter ego do diretor.

Assim como ocorre em lares brasileiros, Cleo desenvolve uma relação genuína de afeto com as crianças e a patroa. Na belíssima sequência na praia que aparece no cartaz, ouve declarações de amor incondicional da família, mas mesmo assim divide um quarto do tamanho de uma caixa de sapato com a colega mixteca, no qual é proibida de ligar a luz para não gastar energia, leva esporro por não limpar merda do cachorro da garagem – embora seja quase onipresente nas tarefas do lar – e precisa parar todos seus afazeres toda vez que alguém sai de carro para segurar o animal fujão.

É verdade que Cuarón filma belamente o drama. Assim como em A Forma da Água (2017), do seu amigo Guilhermo Del Toro, a câmera se movimenta contínua e sinuosamente. Aqui a intenção é oferecer um panorama de quase tudo que aconteceu na capital do México entre os anos de 1970 e 1971, especialmente na casa da família. O resultado é deslumbrante, com uma reconstituição de época primorosa e uma daquelas fotografias em preto-e-branco, assinada pelo próprio diretor, que dá vontade de parar várias cenas, tirar o print e pendurar em um quadro na parede. A cena inicial do avião, um símbolo para transitoriedade da história contada, refletido na poça d’água é de babar, mas as mazelas da sociedade mexicana são filmadas friamente, sendo preciso estar muito atento para enxergar as mixtecas grávidas e o pequeno menino pobre com um balde na cabeça fazendo vezes de capacete de astronauta.

Grandes cineastas foram mais felizes em revisitar a infância como Federico Fellini em Amarcord (1973), Woody Allen em A Era do Rádio (1987) e François Truffaut em Os Incompreendidos (1959). Contudo, os mais bem-sucedidos em transformar histórias pessoais em imagens foram dois cineastas brasileiros, pela acidez com que trataram o tema, sem a auto-indulgência de Cuáron: João Moreira Salles e Anna Muylaert. No documentário Santiago, dirigido por Salles em 2007, o cineasta faz mais que uma mea-culpa ao resgatar a história de um mordomo subestimado por ele e seus irmãos, que trabalhou durante 30 anos para sua família, o resultado é uma dolorida expiação pública. Já em Que Horas ela Volta? (2015), Muylaert joga luz sobre uma empregada em muitos aspectos parecida com Cleo de Roma. A cineasta, porém, não tem medo de pôr o dedo na ferida e expor as camadas sociais do nosso país, em uma época que o Brasil começava a sair de um frágil conto de fadas para entrar no pesadelo que se encontra hoje.

Ao contrário de todos os cineastas citados acima, Cuarón parece embevecido consigo mesmo. Em entrevistas, o diretor reconheceu a perversidade das castas que rondam a América Latina, que não coincidentemente é definida por cores, mas assim como uma criança faria, ele criou uma história apenas para mostrar seu amor pela babá, pena que isso não valha para outra coisa senão para justificar seu admirável mundo novo.

Nota: 6/10

Trailer:

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Categorias:Cinema, Críticas

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