Os programas culinários e os prazeres culpados

Atenção! Este texto contém Spoilers de MasterChef Brasil Profissionais e The Final Table!

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Encerrou-se ontem (11) a terceira edição do MasterChef Brasil Profissionais – a nona ao todo, se considerarmos as temporadas com cozinheiros amadores e crianças. Ao final, me flagrei perguntando a mim mesmo por que este é um dos únicos programas de televisão tradicional que continuo assistindo, mesmo roubando horas do meu sono, sendo esquemático e há três edições não coroar meu participante favorito. Sempre digo que o programa não chega a ser um desperdício total por ser um talent show, que o difere, por exemplo, da futilidade do Big Brolher Brasil. Após ler alguns textos na internet, porém, tive que me conformar com a mais pura verdade: programas culinários são meus guilty pleasures, e o de muita gente também.

No cinema, é fácil detectar os guilty pleasures. Basta dizer que gosto de Um Sonho Possível, Showgirls, Todo Mundo em Pânico 4 e Neve Pra Cachorro, mas todos cinéfilo tem direito aos seus. Agora, a televisão em si já é um enorme prazer culpado, vítima da patrulha pós-moderna contra o senso comum, que condena todos os prazeres específicos facilmente criticáveis. Mas não vejo problemas em assumir que se gosta de coisas que sabemos não tem nada de extraordinário, ajuda a manter o pé no chão, sabe. O MasterChef, por exemplo, não nos ensina a cozinhar como a boa e velha Ana Maria Braga, a edição é picotada (embora seja quase um filme do Tarkovsky comparada à edição americana) e, às vezes, acompanhamos duas dezenas de receitas simultaneamente. O que nos vicia então? A primeira resposta é simples: ora, todo mundo gosta de comer. Nem todo mundo quer ou gosta de cantar como em The Voice, nem todo mundo quer e gosta de dançar como na Dança dos Famosos e tem gente que tem ojeriza só de pensar em ficar largado e pelado na selva como em… Largados e Pelados. Mas comer é algo que mesmo que você não gosta de fazer, tem que fazê-lo, nem que seja pela própria sobrevivência. Esses programas são ainda uma espécie de fruto proibido: nós comemos com olhos e ouvidos, nunca com a boca, o nariz e o tato como deveria ser, e tudo que é proibido é mais gostoso, ou seja, é um prazer culpado.

A segunda resposta consiste no apelo de qualquer obra ficcional (sim, esqueça a realidade, ela não existe): a humanidade dentro de nós. Veja bem, os clipes da vida pessoal dos participantes, as lágrimas de Paola Carossela ao receber a bandeira do Brasil de presente, a crueldade dos julgamentos e a própria personalidade dos participantes nos envolvem de tal modo que selecionamos os mocinhos e os bandidos, o bem e o mal, com a ajudinha da montagem, é claro. Nesta edição do MasterChef, por exemplo, um dos escolhidos foi Thales, o primeiro homem transsexual a participar do programa. As origens humildes e a própria trajetória cheia de preconceitos enfrentada por um chef que faz a transição de gênero seriam um prato cheio (sem trocadilhos) para o público simpatizar com o homem. Porém, Thales se mostrou arrogante, ressentido e pateticamente ardiloso, ganhando a antipatia do público, que vibrou quando ele foi eliminado. O favoritismo foi todo para William, que sempre metia os pés pelas mãos, mas era autêntico e brincalhão e chegou à final contra o chef com raízes franceses, mas sem apelo nenhum, Rafael. Como não é Big Brother Brasil nem Eleições 2018, em que o público pode premiar seu favorito, Paola, Henrique Fogaça e Erick Jacquin, elegeram o insosso (porém, competente) Rafael como vencedor, levando o público no Twitter às lágrimas.

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Para quem, assim como eu, vai sentir um vazio nas noites de terça-feira sem o programa da Band, recomendo um remédio paliativo: The Final Table¸ reality culinário da Netflix que estreou em novembro. É um MasterChef Pofissionais turbinado com chefs do mundo todo, incluindo um brasileiro entre os participantes, e um episódio todo dedicado ao nosso país com a participação da chef Helena Rizzo. A final é disputada entre os homens brancos caucasianos de países desenvolvidos, o que é decepcionante assim como as finais de MasterChef, mas mesmo assim vou assistir todas as novas temporadas que surgirem, por que é irresistível ao meus olhos e ouvidos e a minha humanidade.

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Categorias:Crônicas e Artigos, Televisão

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