“Tiros na Broadway”, clássico de Woody Allen, discute o talento (ou a falta dele)

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Tiros na Broadway (1994) é, essencialmente, um filme sobre talento. A primeira imagem, como não poderia deixar de ser, é um belíssimo plano geral da famosa avenida nova-iorquina do título, cheia de vida nos anos 1920. Em seguida, somos apresentados ao idealista David (John Cusack, um dos melhores atores a incorporar a persona de Woody Allen) numa discussão com o agente, na qual ele afirma que é um artista de verdade e não vai se vender ao entretenimento superficial dos teatros do local, mas continuar produzindo peças autorais, “sobre a alma dos homens”, mesmo que elas sejam um fracasso.

Para conseguir financiamento, entretanto, David deve aceitar no elenco de sua nova empreitada Olive Neal (Jennifer Tilly), a namorada sem talento de um grande mafioso. Ela traz consigo um guarda-costas, Cheech (Chazz Palminteri), que a vigia em todos os ensaios. O homem de tanto ver a peça acaba revelando-se um dramaturgo de primeira e começa a dar palpites sobre os rumos do espetáculo.

O agente, o elenco e até mesmo a namorada de David se entusiasmam com as ideias de Cheech. O dramaturgo, às escondidas, começa a reescrever as peças de acordo com os pitacos do guarda-costas e todos concordam que de chata a peça ganha vida. O espetáculo é um sucesso, mas David, angustiado e frustado, por saber que a peça não é sua, decide casar-se, mudar de cidade e desistir da carreira artística.

O desfecho da história de Woody Allen (escrita em parceria com Douglas McGrath) é exemplar em mostrar um aspecto característico do cinema americano, o personagem principal, vulgo herói, no pólo oposto de onde começou. David dentro de menos de duas horas de filme vai passar de completo arrogante a humilde. Este tema do talento, ou da falta dele, é recorrente na filmografia do cineasta. Pode ser visto em filmes como Interiores (1978), Vicky Cristina Barcelona (2008) e Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2010). O ponto em comum em todos é a esperança das pessoas em encontrar na arte – seja teatro, literatura ou fotografia – uma tábua de salvação que dê algum significado à vida, terminando geralmente na aceitação do héroi de sua própria mediocridade.

Tiros na Broadway, comédia de narrativa direta conduzida pelos personagens, é uma das mais felizes realizações de Allen tanto no que se espera dele – texto afiado e elenco em estado de graça, com destaque para Dianne Wiest, ganhadora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante – quanto nos aspectos técnicos que, por meio dos figurinos e cenários, nos transportam para os amados anos 1920 da memória do diretor.

Nota: 9/10

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Em tempo: o filme apresenta um dilema moral delicioso: “Vamos dizer que tem um prédio em chamas e você pode entrar lá e salvar somente uma coisa: a última cópia conhecida de uma peça do Shakespeare ou algum ser humano desconhecido. O que você faria?”. Qual a sua resposta?

Trailer:

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Categorias:Cinema, Críticas

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