“Não Deixe Rastros”: o “Capitão Fantástico” mais cáustico

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Em um artigo para Variety na semana passada, Owen Gleiberman defendeu que a maioria dos grandes filmes são, em algum nível, sobre empatia. Isso vem à mente ao assistir Não Deixe Rastros, de Debra Granik – mais conhecida por descobrir Jennifer Lawrence em Inverno da Alma (2010) – uma vez que para o longa funcionar é preciso antes de ter muita empatia, colocar-se no lugar de Will (Ben Foster), o personagem principal. Na história, somos apresentados ao homem e sua filha adolescente, Tom (Thomasin McKenzie), no momento em que eles preparam a lenha e fazem fogo, sem fósforo ou isqueiro, para fazer a refeição. Logo, percebe-se que os dois vivem indetectados em uma floresta de Portland, no extremo noroeste dos EUA.

A história dos párias é construída lentamente por Granik, que imerge o espectador aos poucos na trama. Com escassos diálogos, descobrimos que a rotina da família já dura há alguns anos, eles têm o mínimo de contato com a sociedade e dependem muito pouco dos seus objetos. Em uma cumplicidade bucólica, o pai até mesmo ensina a filha periodicamente a se camuflar na mata para não ser encontrada por ninguém. A informação mais importante que recebemos do roteiro é que Will é um ex-soldado de guerra traumatizado pelas suas experiências.

O rompimento desse pequeno universo ocorre quando em um momento de distração, Tom se deixa mostrar para um homem que está passando pela reserva. Eles são retirados do acampamento e colocados sob a responsabilidade do serviço social. Pai e filha ganham casa, comida e emprego, tudo o que Will, por algum motivo, não quer. Após tentar se adaptar, o homem decide fugir de volta ao mundo selvagem, mas a jovem menina deseja ficar com os confortos que o convívio social lhe oferece.

Nesse momento que a empatia por Will deve entrar em cena. É injustificável (aos olhos de muitos, até mesmo crueldade) que o pai leve a filha em direção ao desconhecido, longe de qualquer contato com a sociedade. Entretanto, o cinema está aqui para isso: reduzir esse julgamento – entre as pessoas na tela, quem quer que seja, e as pessoas na platéia – e depurá-lo para finalmente poder colocar-se nos sapatos dos outros. Existe algo de imponderável no comportamento de Will, que faz com que ele pertença ao isolamento, ao nomadismo, que, assim como Tom irá perceber, há que ser respeitado, nem que para isso o elo que os une precise ser ressignificado.

O único senão do belo filme de Granik é a falta de algumas informações como o destino da mãe da família e a referência temporal da vida dos dois na floresta. É compreensível, porém, a falta de explicações sobre os problemas psicológicos de Will, visto que o mais importante é como ele lida com esses sentimentos. Noves fora, nada que estrague a sensação de encantamento ao final deste Capitão Fantástico mais extremo e realista e, por isso mesmo, mais ferino.

Nota: 8/10

Trailer:

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Categorias:Cinema, Críticas

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