TOP 10 dos 100 Filmes que Não Trocaria Pela Companhia de Ninguém

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Como desafio me propus a fazer uma lista dos meus 100 Melhores Filmes e escrever ao menos algumas linhas para justificar a escolha. Veja bem, é algo bem pessoal, mas muitas vezes meu gosto coincide com muitas listas de melhores por aí. Eu sei que algumas pessoas considerariam algumas ausências indecentes, mas dei preferência para aqueles filmes que fazem meu coração bater mais forte ou me pegam de jeito no quesito de identificação filosófica e moral, mesmo sabendo que há clássicos atemporais que são “melhores”.

Tentei representar todos os diretores que eu gosto, porém, é humanamente impossível escolher só um filme de Woody Allen (5), Ingmar Bergman (4), Quentin Tarantino (2), Mike Nichols (3) François Truffaut (2), Irmãos Dardenne (2), Robert Zemeckis (2), Ridley Scott (2), Agshar Farhadi (2), Richard Linklater (2), George Roy Hill (2), Alfred Hitchcock (3) e Luis Buñuel (2). Sem mais delongas, vamos para a última parte do especial com os filmes que estão no TOP 10, em ordem decrescente:

10. Conta Comigo (Rob Reiner, EUA, 1986)

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Recentemente, escrevi sobre As Vantagens de Ser Invisível e comentei que certos filmes são como velhos amigos que a gente visita ou conversa só uma ou duas vezes por ano, mas que sabemos que sempre estão lá e sempre estarão lá para quando precisarmos. Nenhum filme me causa mais essa sensação que Conta Comigo.

A obra é dirigida por Rob Reiner, um dos melhores operários-padrão de Hollywood, que deu vida a pérolas como o revolucionário pseudodocumentário Isso É Spinal Tap, Harry e Sally e Flipped – O Primeiro Amor. Ao lado de Frank Darabont (Um Sonho de Liberdade, À Espera de um Milagre) é também o cineasta que melhor soube adaptar Stephen King. Além de Conta Comigo, oriundo de um conto do autor, ele dirigiu Kathy Bates no excelente Louca Obsessão.

O filme é esponsável por cimentar a imagem de River Phoenix na memória do público, mas é Wil Wheaton que me cativa mais na pele de Gordie, um jovem que carrega consigo um trauma muito maior que a sua idade e a sua insegurança conseguem suportar. Ao lado dos amigos, ele enfrentará a jornada de sua vida atrás de um cadáver na floresta e, ao final, ninguém será mais o mesmo, nem o público.

Não sei como definir o que sinto ao final de Conta Comigo, é uma tristeza, um desamparo quente, ainda vou encontrar a palavra certa. É a quase a mesma sensação que senti ao final de E Sua Mãe Também, outro filme sobre amizades que pareciam inabaláveis. Ah, como assisti muitas vezes na Sessão da Tarde, é um dos poucos que aceito rever dublado.

9. Dogville (Lars Von Trier, Dinamarca, 2003)

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Nem gosto muito de Lars Von Trier, cineasta “polêmico”, mas que me causa certa indiferença, bom, exceto por Dogville, que gosto tanto, mas tanto, que está aqui neste Top 10. Existem dois motivos para isso.

O primeiro, é claro, é a ousadia estilística de criar um cenário com giz no chão e paredes invisíveis. É tão estranho, que te imerge imediatamente dentro da história na sede de entender a dinâmica daquele espetáculo.

O segundo é por que realmente é um filme envolvente. Na história, a forasteira Grace (Nicole Kidman) descobrirá a duras penas que não existe bondade na cidade que a abrigou. Não é que seus moradores sejam apenas ruins, eles são perversos. Von Trier me conquistou totalmente no desfecho que mostra a vingança de Grace e me faz abandonar todos os meus ideais pacifistas para me regozijar com a morte lenta e dolorosa dos dogvilleanos. Se um filme te hipnotiza a ponto de você negar a própria identidade, esse filme merece sua curiosidade e atenção.

8. Os Incompreendidos (François Truffaut, França, 1959)

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Marco zero da nouvelle vague francesa e início de uma das minhas séries preferidas do cinema: As Aventuras de Antoine Doinel. Alter ego do cineasta, Doinel (Jean-Pierre Leáud) compartilhou muitas das mesmas tristes experiências de infância de Truffaut. Devido à popularidade dos filmes, diretor, ator e personagem chegaram mesmo a ser confundidos nas ruas de Paris. Há um excelente documentário chamado Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, com deliciosas histórias e imagens de bastidores dessa fase.

Gosto do filme por que Antoine Doinel, de espírito livre, está sempre correndo, seja da família, da escola, do reformatório, sempre incompreendido. Essa visão de Truffaut da infância como um trauma, não uma doce recordação, também me pega de jeito. Embora o autor inicialmente não planejasse que Doinel fosse um personagem recorrente na sua filmografia, ele reencontrou-o em um curta-metragem (Antoine e Collete) e três longas: mostrando seu romance com Christine (Claude Jade), em Beijos Proibidos, depois o casamento dos dois em Domicilio Conjugal e divórcio do casal em Amor em Fuga (1979). Todos excelentes.

7. O Homem que não estava lá (Joel e Ethan Coen, EUA, 2001)

Peça para citar alguns filmes dos Irmãos Coen e provavelmente receberá como resposta Onde os Fracos Não Tem Vez, Fargo e O Grande Lebowski. Eu incluiria um quarto na lista: O Homem que Não Estava Lá. A meu ver, é o melhor filme dos cineastas por solidificar um tipo de personagem que eles adoram e eu também: o homem medíocre que tenta dar algum significado para sua vida, mas acaba falhando miseravelmente. Este homem é Ed Crane, o espectador da própria existência, estupendamente bem interpretado por Billy Bob Thorton. Como a história se passa nos anos 1940, é irresistível comparar a fotografia em preto-e-branco, de Roger Deakins, com os filmes noir, porém, as semelhanças param por aí. A obra atinge níveis filosóficos bem mais complexos do que as intenções do noir. Acho uma grande injustiça poética que o melhor filme dos Coen nunca esteve lá no pódio como os outros citados acima.

6. O Poderoso Chefão I e II (Francis Ford Coppola, EUA, 1972/1974)

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Aqui vou dar uma roubada e incluir os dois primeiros filmes como um só, primeiro por que acho que é mesmo, e segundo por pura incapacidade de escolher qual gosto mais.

Poderia passar horas escrevendo, mas vou resumir o motivo em uma frase dita por Don Corleone (Marlon Brando) e que resume a ideia dos filmes na minha visão: “Um homem que não se dedica à família nunca será um homem de verdade”. Você pode não ter assistido, mas O Poderoso Chefão já faz parte da cultura popular, logo, a frase faz sentido de cara. O termo “família” na trilogia atinge uma dimensão homérica, é mais que uma instituição: é uma sina, um carma, um sentido para vida (que o diga Michael Corleone!). Assim como em Casablanca, os diálogos das obras já fazem parte do cotidiano. Perfeito em todos os sentidos.

5. O Filho da Noiva (Juan José Campanella, Argentina, 2001)

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Um filme redondinho, muito cativante, com roteiro bem lapidado, que é a especialidade dos argentinos, vide O Segredo dos Seus Olhos, também de Campanella, e Relatos Selvagens. Apresenta um tour de force do onipresente Ricardo Dárin, um craque das ditas “dramédias”. Mais que as tragédias que acontecem na trama como ataque do coração, crise econômica e doenças da velhice, destaco o humor esperto de referências que vão de Zorro ao Chaves. Por falar nisso, você sabe quem é Dick Watson?

4. Annie Hall (Woody Allen, EUA, 1977)

4

A guinada de Allen para o panteão dos grandes diretores americanos começou aqui. Merecidamente, visto que o filme é mesmo um estrondo. O já clássico monólogo de abertura dá o tom para uma viagem pessoal pela própria memória de Alvin (Allen). Como toda boa memória, é confusa, exagerada e anárquica, o que oferece a liberdade do filme virar animação, quebrar a quarta parede, dividir falsamente a tela ao meio e outras delícias visuais. E o que dizer de Diane Keaton? Interpretando uma versão de si, ganhou o Oscar. Como se falassem: “você é muito boa sendo você mesma, toma aqui o Oscar de Melhor Pessoa”. Brilhante.

3. Butch Cassidy & The Sundance Kid (George Roy Hill, EUA, 1969)

3

William Goldman, o roteirista, faleceu recentemente, mas só por ter escrito esta pérola, sua vida valeu a pena. Entre cenas históricas como o duelo final,  a fuga a cavalo pelas montanhas (who are those guys?) e o passeio de bicicleta ao som de Raindrops Keep Falling in My Head, destaco a sequência em que Butch, Sundance e Etta fogem para Bolívia. Montada exclusivamente através de fotografias amareladas, ao som instrumental da música de Burt Bacharach, se transformou em uma das mais excitantes passagens de tempo no cinema. Um daqueles filmes que poderia assistir mil vezes seguidas sem cansar e o início de uma das maiores amizades do cinema entre Paul Newman e Robert Redford.

2. Match Point (Woody Allen, UK/EUA, 2005)

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Allen sempre brincou de fazer filmes de crime e mistério – vide Crimes e Pecados, O Sonho de Cassandra e Um Misterioso Assassinato em Manhattan – mas nunca foi tão feliz como neste aqui. No seu primeiro filme londrino, ele inseriu na clássica história de “quem matou?”, um protagonista atormentado pela própria consciência como em Crime e Castigo de Dostoiévski, Macbeth de Shakespeare e O Estrangeiro de Camus. Assim, deu substância a um simples filme de gênero.

O papel determinante da sorte na nossa existência, outro tema bastante recorrente em sua filmografia, é melhor discutido aqui. Para o cineasta ateu, o sentido da vida não está pré-determinado, sendo na verdade aquele que damos a ela. Sendo assim, podemos fazer tudo o que quisermos, pois tudo é permitido. Entretanto, se você escolher o caminho da iniquidade, tal qual Chris Wilton (Jonathan Rhys-Meyers) no filme, deverá arcar com as consequências. Você pode até não sofrer uma punição severa, mas os fantasmas da sua cabeça nunca desaparecerão.

Apresentei o filme a alguns amigos, que o acharam perturbador, justamente por que Allen se nega a dar uma punição mundana à maldade. Mas acho que o cineasta quis nos passar uma mensagem otimista: é mais nobre aceitar a terrível verdade da existência e ser decente e moral diante dela para, desse modo, dar-lhe algum sentido positivo. Sentido este distante de castigos ou recompensas celestiais.

1.Um Homem que Dorme (Bernard Queysanne, França, 1974)

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Chegamos ao melhor filme de todos os tempos.  Saiba o porquê:

“Em 1974, Bernard Queysanne filmou Um Homem que dorme, a respeito de um jovem de 25 anos, 29 dentes e três pares de meia que decide se deslocar da ordem social. O filme é baseado em um livro de Georges Perec, com roteiro do próprio, e mostra o tal Jovem (Jacques Spiesser) perambulado por Paris após a decisão de evitar qualquer contato desnecessário com a sociedade, incluindo aí os amigos da universidade e a família.

Desse modo, aos poucos, ele entra em um estado de letargia, solidão e neutralidade, destituindo tudo, tudo mesmo, de qualquer significado. Como na reprodução da pintura de René Magritte em sua parede, torna-se um homem sem espelhamento, de costas para si mesmo.

A obra tem formato de fluxo de consciência, sem diálogos, narrada brilhantemente em terceira pessoa por Ludmila Mikaël, com uma fotografia em preto-e-branco que transita entre a explicação necessária para entender o comportamento do jovem e a liberdade fugidia das imagens de Paris, que nos fazem entrar num transe onírico enquanto embarcamos na mente do rapaz…

Crítica completa aqui.

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That’s All, Folks!

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